Arte, gentrificação e resistência

contrafilé

Arte, gentrificação e resistência

Sábado, 30/07

Nos debates recentes sobre as transformações das cidades, artistas e as práticas artísticas são muitas vezes apontados como corresponsáveis dos processos de gentrificação. A jornalista ativista Sabrina Duran explica a gentrificação como o “processo de expulsão de moradores pobres de determinada região por meio de um conjunto de medidas socioeconômicas e urbanísticas marcado pela hipervalorização de imóveis e encarecimento de custos”.

Por isso, o projeto de implementação de um centro cultural em um lugar de moradia popular, a Vila Itororó, que resultou na saída dos então moradores, é considerado por muitos como uma instrumentalização de um certo entendimento do que é cultura – e de certas práticas artísticas – para fortalecer processos de gentrificação no bairro da Bela Vista. Porém, outros entendimentos de cultura são possíveis – e outras práticas artísticas também. No próprio bairro da Bela Vista há iniciativas, como as do Teatro Oficina, que estão à frente da resistência à gentrificação em curso na região. Na própria Vila Itororó, ao longo da resistência dos moradores contra o despejo, artistas e coletivos artísticos tiveram papel ativo nesse processo, colaborando para uma permanência mais longa das famílias no local. Da mesma forma, hoje, a Vila Itororó Canteiro Aberto, em um momento de revisão pública de decisões tomadas anteriormente, pretende promover outras práticas artísticas e ampliar a noção de cultura, sugerindo, por exemplo, que a moradia pode e deve ser considerada um fenômeno cultural, tendo seu lugar legítimo em um centro cultural.

Na contramão da instrumentalização da cultura para a especulação imobiliária, convidamos para uma conversa artistas cujas práticas almejam ser úteis no fortalecimento de populações excluídas. Cibele Lucena e Joana Zatz Mussi desenvolvem nos últimos 10 anos, como integrantes do coletivo Contrafilé, o projeto “A Rebelião das Crianças”, que consiste na potencialização da capacidade de revolta das crianças por meio de ações urbanas que apontam para uma outra cidade em devir. Da mesma forma, porém com outras táticas, Julio Dojcsar, integrante da Casa Rodante, vem atuando no bairro da Luz, junto aos moradores da região, para propor ações no espaço público e assim questionar as disputas que estigmatizam essa parte da cidade como “cracolândia”.

Contra processos de gentrificação, e apontando para possíveis resistências, essa conversa pretende discutir o papel da arte e o lugar da cultura nas transformações urbanas em curso. Futuramente irão ocorrer novas conversas em torno do tema.

Para dar suporte ao discurso, diversas atividades acontecem simultaneamente no galpão da Vila Itororó Canteiro Aberto. Neste sábado, na parte da manhã acontece novo plantão da Clínica Pública de Psicanálise, com atendimentos individuais gratuitos para quem estiver precisando conversar sobre a vida (atendimentos por ordem de chegada, às 10h, 11h, 12h e 13h); entre 12h30 e 16h é possível usar a marcenaria aberta do canteiro; às 14h30 acontece a oficina de circo, aberta a todas as pessoas a partir de 7 anos de idade; e crianças e adultos estão convidados a brincar livremente pelo espaço, seja usando os espaços livres ou as estruturas de madeira existentes (módulos diversos, paredinha de escalada, escorregador, balanço, cabaninha…).

Um lanche coletivo será servido durante a conversa, como mais uma maneira de habitar o canteiro de obras. Desta vez a cozinheira convidada é a artista Kadija de Paula, e o prato servido será o tamal (do náuatle tamalli, que significa “envolto”), uma comida portátil, feita de massa de milho com recheios e invólucros que variam de região para região. Originalmente usados para alimentar os exércitos pré-colombianos da Mesoamérica, o tamal se tornou um clássico da culinária camponesa Latino-americana e segue alimentando revoluções e resistências. A Comandante Paula apresenta uma re-leitura deste puro creme do milho com um delicioso recheio vegano, orgânico e transformador. Tamal pero nóis luta!

Programação geral 30/07/2016

10h, 11h, 12h, 13h
Clínica Pública de Psicanálise
Até quatro atendimentos individuais gratuitos, por ordem de chegadaA duração aproximada é de 50 minutos. São recebidas até quatro pessoas por sábado, por ordem de chegada, às 10h, 11h, 12h e 13h. Quem estiver passando por um momento difícil de vida, ou sem saber muito o que está sentindo, pode vir nesses horários para conversar um pouco… A partir da primeira conversa será possível agendar uma continuidade.Os atendimentos são individuais, gratuitos e têm a forma de uma conversa.

12h30 às 16h
Marcenaria aberta
Toda obra da construção civil precisa de máquinas de carpintaria/marcenaria. Obras de patrimônio precisam dessas máquinas para usos diversos e também para restaurar janelas, portas, pisos e outros objetos de madeira. No projeto Vila Itororó Canteiro Aberto a marcenaria não fica restrita à obra de restauro, estando aberta para a cidade. Às quintas e sábados, com exceção de feriados, a marcenaria está aberta para pessoas com conhecimento prévio e prática em carpintaria.

14h
Visita ao pátio de casas da Vila Itororó
As visitas ao pátio de casas compartilham o andamento do processo de restauro e descrevem a formação da Vila Itororó, que contém um pouco da formação da própria cidade de São Paulo. O visitante tem acesso às muitas histórias que compõem a Vila: a sua concepção como uma “casa-monumento” cercada por casas de aluguel, a questão da água como elemento estruturante da Vila, o Clube Eden Liberdade e a resistência das famílias que viveram nas últimas décadas na Vila. O público é estimulado a imaginar, debater e tomar parte nas discussões sobre os usos futuros da Vila, de modo que o sentido da preservação de um patrimônio público seja apropriado coletivamente. Duração: 1h30. Limite de público: até 30 pessoas. A visita é gratuita. Para participar não é necessário agendamento prévio, a não ser que se trate de um grupo formado por mais de 15 pessoas.

14h30 às 17h30
Oficina de circo
As oficinas de circo são divididas em dois momentos. Na primeira hora, o foco é em vivências em acrobacia em dupla, uma das diversas habilidades do circo, por uma proposta pedagógica segura e que visa o autoconhecimento e o respeito ao próximo. Nos encontros são realizados exercícios individuais de consciência corporal, força, flexibilidade, figuras acrobáticas com o porto deitado, em pé e com ambos os participantes em pé. Na segunda parte dos encontros o objetivo é resgatar uma brincadeira tradicional e as suas possibilidades como habilidade circense, através da perna de pau. Os encontros são recheados de novas descobertas, com esse prolongamento das pernas. O equilíbrio, a inteligência espacial e a consciência corporal são estimulados na oficina. São estimuladas possibilidades de dança com o aparelho, acrobacias individuais e em grupo. Com Guilherme Assolan, Rachel Monteiro e Levi Orion

15h
Conversa “Arte, gentrificação e resistência”
com Cibele Lucena e Joana Zatz Mussi pelo coletivo Contrafilé e Julio Dojcsar, integrante da Casa Rodante
+
Tamales que vem para bem, lanche coletivo com Tamales preparado por Kadija de Paula
Kadija de Paula é artista, digestora e ativista micro-política. Interessada no corpo como campo de batalha da auto-revolução, e no comer como um ato político relacionado a economia do trabalho invisível. Vive no Rio de Janeiro, onde é chef residente da Cozinha Capacete em que, entre outros projetos, desenvolve o PF [PRATO FEITO | PRETTY FAIR | PROPER FUEL], uma série de almoços a base de plantas e a preços populares que buscam o equilíbrio econômico, nutricional e político do prato feito.

Sobre o Contrafilé
Formado em São Paulo, Brasil, no ano 2000, o Grupo Contrafilé é um coletivo de arte-política-educação que cria possibilidades de praticar o direito à invenção da cidade. Em 2005 uma rebelião na Febem (atual Fundação Casa) nos gerou um mal-estar produtivo, tornando-se impulso de um processo de investigação-ação que nunca mais parou. A imprensa nomeava “marginais”, “delinquentes”, “internos” enquanto entendíamos “crianças”. Nos lançamos, então, na criação de dispositivos que pudessem revelar essa potência, criando “imagens de um devir” – balanços em viadutos, quintais móveis no centro de São Paulo, parques construídos de forma autônoma, colaborativa – provocando rupturas nesta cartografia de forças que exterminam a criança (das dimensões mais sutis à mais concreta) exatamente por não suportá-la enquanto rebelião eminente, possibilidade de transformação radical da realidade dada.

Sobre a Casa Rodante
O projeto Casa Rodante, desenvolvido pelo coletivo artístico casadalapa em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, é uma iniciativa artística e social que tem como cenário a região da Luz, no centro da cidade de São Paulo. Atuando em frentes diversas, o projeto mescla aspectos do urbanismo tático nômade com meios de expressão artísticos e algumas ideias caras à psicologia social e para envolver e fazer interagir os diferentes moradores da região, de trabalhadores do comércio a crianças e dependentes químicos.

Compartilhe:Share on FacebookGoogle+Tweet about this on Twittershare on TumblrEmail to someonePin on Pinterest