Centro Cultural Temporário

pessoas na assembleia mosaico
meninos jogando bola

O que acontece detrás dos tapumes de uma obra de restauro? Quando uma obra fica finalmente pronta? Quem define os usos futuros de um lugar sendo restaurado? Quem é o público que passará a frequentar esse lugar? Com quais recursos as obras públicas são financiadas? A abertura do canteiro das obras de restauro da Vila Itororó é uma forma de responder a essas indagações e de apontar para outras perguntas, tornando visíveis as muitas decisões que dão valor ao lugar sendo restaurado e o validam como patrimônio.

No canteiro de obras da Vila Itororó o trabalho dos arquitetos, engenheiros, operários e marceneiros estão à vista. Qualquer pessoa pode adentrar esse canteiro e, desta maneira, deixar de ser um mero observador para se tornar parte deste canteiro, como público do projeto. Entre os escritórios e as ferramentas de trabalho, o visitante encontra um espaço em construção contínua, que traz à tona as lutas recentes da Vila e o seu passado mais distante, junto aos seus futuros possíveis. Esse espaço em construção cresce junto ao seu público no meio dos escombros e das obras de restauro em andamento.

Tudo está em construção no canteiro aberto: o passado e o futuro da Vila com suas múltiplas histórias, contraditórias e falhas; o site onde será disponibilizado o arquivo do projeto; os desafios técnicos de restauro que pedem o desenvolvimento de técnicas inovadoras; a noção de cultura já que a Vila, pelas suas características, materiais e imateriais, não pode ser um centro cultural tradicional; as diversas maneiras de habitar a Vila; a formação do público que passa a existir enquanto usa o local; as divisões de trabalho dos profissionais envolvidos no restauro que criam novas formas de trabalhar; o modelo de gestão que a Prefeitura de São Paulo pretende desenvolver para o conjunto; e até a própria cidade que, a partir da experiência da Vila, parece poder ser construída conjuntamente para se tornar um lugar verdadeiramente comum. Esse espaço em construção e de construção coletiva funciona como centro cultural temporário ou, para melhor dizer, como experimento, em escala real, de um outro tipo de centro cultural, que ainda está por vir. É um laboratório de cidade e um espaço-manifesto ao mostrar que existem alternativas aos modelos vigentes dos equipamentos culturais; que o patrimônio é vivo e pode ser ativado, independentemente do seu estado de preservação; e que os usos futuros da Vila devem ser pensados a partir das experimentações e dos debates públicos que hoje acontecem nela.

Obras públicas pedem uma construção coletiva. Essa demanda é urgente. A cidade não pode esperar por dias melhores para, enfim, melhorar. Ela pode mudar agora a partir do que ela é e não a partir do que ela já foi ou sonha em ser algum dia. Quem vier na Vila hoje já pode ouvir a sua história contada por arquitetos, urbanistas, historiadores, ex-moradores, recém frequentadores e vizinhos; pode encontrar trabalhos de artistas que problematizam o lugar que a Vila ocupa na cidade e o lugar que a arte ocupa na Vila; pode participar de oficinas de marcenaria; usar a horta; brincar no galpão; cozinhar; ensaiar; estudar; descansar; ler ou simplesmente passear; respeitando algumas regras flexíveis de convivência mas sem precisar de nenhuma autorização prévia; porque a cidade é nossa; porque o público é nosso bem comum; porque o patrimônio existe também pelo valor de uso que nós lhe conferimos.

Por canteiros abertos!

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