O direito à cidade psíquica: a Clínica Pública de Psicanálise, ou a psicanálise como canteiro aberto, por Daniel Guimarães

texto, fotos, desenhos e montagens por Daniel Guimarães, exceto quando indicado

No começo de 2017 foram retomados os trabalhos na Clínica Pública de Psicanálise, na Vila Itororó Canteiro Aberto. Após o primeiro semestre de atendimentos no galpão, na segunda parte de 2016, em sua maioria nas tardes de sábado, pensamos novos trabalhos possíveis, da ampliação dos horários de atendimento até atividades de formação. O espírito daquele momento de reformulação foi expresso no texto abaixo:

Em fevereiro foi retomado o trabalho da Clínica Pública de Psicanálise, pelo segundo ano consecutivo na Vila Itororó Canteiro Aberto. Quem estiver passando por um momento difícil de vida, ou sem entender ao certo o que está sentindo ou por que está sentindo, pode vir até aqui para conversar. A clínica é um espaço onde psicanalistas e artistas – convencidos de que é preciso existir espaços públicos de verdade na cidade, cada vez mais privatizada – se reúnem para ouvir o outro e criar coisas juntos. A clínica atende ex-moradores da Vila Itororó e militantes de movimentos sociais em diferentes dias da semana e realiza um plantão aberto a todos e todas nas manhãs de sábado, para acolher demais interessados. Os atendimentos no plantão são individuais, gratuitos, para todas as idades e têm a forma de uma conversa. A duração aproximada é de 50 minutos. São recebidas ao menos quatro pessoas por sábado, por ordem de chegada, às 10h, 11h, 12h30 e 13h30 (distribuição de senhas a partir de 9h).

O grupo da clínica defende que a psicanálise deve ser um direito e que o dinheiro não é necessário para estabelecer o vínculo entre analisando e analista, apostando na criação de outra forma, não monetária, para mediar esse encontro. As psicanalistas e os psicanalistas trabalham no projeto por um desejo político e como parte de sua formação, recebendo uma ajuda de custo no valor de um bilhete mensal de transporte (a ideia é que não paguem para ir trabalhar e que, com essa pequena ajuda de custo, possam não somente ir e vir da Vila Itororó nos dias de atendimento, mas se movimentar por toda a cidade durante o mês inteiro). Neste semestre o grupo tem a intenção de criar um fundo de transporte para facilitar a ida à clínica de pessoas que precisam e querem, mas moram longe e não têm dinheiro para pagar a tarifa, algo que aconteceu algumas vezes no ano passado. Um dos objetivos do projeto é sensibilizar o poder público sobre o impacto positivo na saúde mental da população ela não ser excluída territorialmente e poder se movimentar mais pela cidade. A cidade precisa oferecer liberdade e mobilidade para que o nosso psíquico, a nossa mente, também possa ter liberdade e saúde.

Outra novidade do projeto neste ano é a formação de uma biblioteca de psicanálise e cidade, para uso de todas e todos que se interessem pelo assunto e queiram lá estudar, fazer grupos de estudo e outras ideias que surgirem; e a compra de livros infanto-juvenis e brinquedos para atividades específicas com crianças. Essas crianças brincavam ou participavam de oficinas no canteiro e, fora dos horários de atendimento, começaram a se apropriar do espaço da clínica, por elas considerado “o lugar da calma”. A psicanálise pode ser para todos e todas e precisa de muito pouco – apenas duas pessoas falando, escutando, no desejo de estabelecer um vínculo – para acontecer. Essa é a graça dela e, quem sabe, possa ajudar na criação de mais relações comunitárias, íntimas, de solidariedade e confiança.

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Em meados de 2016, escrevi um texto apresentando a ideia que nascera em 2015 [1]. Havia um estranhamento no texto, por ter sido escrito antes do início do trabalho, e também pela dimensão de aposta incerta, sem sabermos o que viria a ser a Clínica, uma vez que começássemos a nos reunir, a atender, a nos relacionar com o espaço. Que público nos procuraria? Como seriam os atendimentos no galpão do Canteiro Aberto? Como isso mudaria nossa forma de pensar a psicanálise, como isso afetaria o bairro e o próprio centro cultural? Agora, com um ano de trabalho, parece necessário um novo comunicado sobre o trabalho realmente feito na Clínica e o trabalho que está por vir. É um texto assinado por mim, mas em diálogo permanente com os e as colegas que compõem e compuseram a Clínica. Muito do que está presente aqui nasceu de convergências e divergências do nosso cotidiano e de conversas com muitas outras pessoas. Muitas coisas no texto de apresentação acima foram realizadas, outras não. Algumas demandarão tempo maior de elaboração e organização. Algumas demandarão crítica e transformação. A Clínica Pública de Psicanálise é um processo vivo, coletivo e que nos dá a alegria de realizar um trabalho sério, de comprometimento com as pessoas que nos procuram, com enorme prazer. Não é pouca coisa, no Brasil de agora.

Talvez tenhamos coisas a acrescentar nas práticas e nos debates e experiências de psicanálise, arte e política, mas não estamos inventando nenhum tipo de movimento. Esta experiência se insere numa longa tradição inventiva de psicanalistas, artistas e militantes no Brasil, dedicados a práticas críticas de luta pela desalienação e a ampliação dos cuidados com a saúde psíquica e da solidariedade como um compromisso político. Político no sentido amplo, da ação engajada no território. Falo sobre analistas que, em situações inusitadas e diferentes, atenderam pessoas que não teriam acesso ao consultório pensado de forma liberal, com perspectivas de universalização dos direitos e de cidadania, palavras que hoje soam quase revolucionárias e que naquela época também o eram. Os cenários foram muitos. As ruas da periferia, os interiores de hospitais, psiquiátricos ou não, a luta pelo fim da violência prisional manicomial; o acompanhamento terapêutico, os centros de convivência, as residências terapêuticas (rigorosamente opostas às denunciáveis comunidades terapêuticas), os centros de assistência psicossocial, o psicodrama; a histórica Clínica Social de Psicanálise no princípio da década de 1970 – fundada por Anna Kattrin Kemper e Helio Pellegrino, talvez a primeira experiência brasileira em que psicanalistas criaram uma prática apontando para fora do circuito de mercado, na vida social, dedicada em especial à população que não tinha acesso ao processo analítico regular, nos consultórios particulares e seu preço. Por isso, aliás, enfrentaram a Associação Psicanalítica Internacional, que exigia a retirada do nome “psicanálise”. Resistiram.

A intenção deste texto é compartilhar um pouco a nossa experiência até aqui, em especial os dilemas e pontos sensíveis que precisamos enfrentar diante do nosso desejo imenso, mas insuficiente, de criar um espaço para que a população possa elaborar seus sofrimentos, angústias, dúvidas sobre si e sobre o mundo em que vivemos. Socializar o conhecimento, os saberes, as incertezas e convocar a comunidade a participar da montagem e da crítica do trabalho é essencial para que a psicanálise não seja apenas ofertada publicamente como um “serviço”, mas que ela seja também pensada e feita publicamente. Recentemente a artista e integrante da clínica, Graziela Kunsch, apresentou seu trabalho na formação de público da Vila Itororó Canteiro Aberto, a partir de um conceito dialógico que ela chamou de abertura para respostas inesperadas. Isso muito tem a ver com a constituição da psicanálise, desde que, por volta de 1880, o médico vienense Josef Breuer, figura da maior importância na vida de Sigmund Freud, silenciou aos pedidos de Bertha Pappenheim, que sabia ser a portadora do conhecimento do seu sofrimento, e não o médico, e batizou este método de “cura pela fala”. E isso muito tem a ver também com a ampliação da noção de cultura e política, pontos de partida da Clínica no contexto da Vila Itororó Canteiro Aberto. O gesto de Breuer, de permitir que Bertha falasse, invertendo a lógica tradicional da vertical relação entre médico e paciente, produziu o espaço para ela rememorar cenas associadas aos seus sintomas. Ao se deixar abrir para uma resposta inesperada, Breuer pôde ouvir e pensar as causas daquele adoecimento e experimentar uma forma inédita de terapia para combatê-lo. A partir daí, Freud deu seguimento para o que veio a ser a psicanálise – por exemplo, atribuindo ao sonhador a tarefa de interpretar o próprio sonho – , um método de investigação do psiquismo humano, suas relações com o mundo e uma ação terapêutica, em cooperação com a inteligência do paciente [2], cuja história se expressa simbólica e poeticamente nas suas formas de existir, amar, fazer coisas e sofrer. O quanto um pequeno gesto como o de Breuer pode contribuir para a história!

Nos dispomos a trabalhar sob os efeitos destas descobertas e da ética desta relação. O trabalho clínico é tecido a partir das circunstâncias das pessoas que encontramos e em relação à história do lugar onde se propõe existir, ao contrário da visão de que a montagem do trabalho, o setting, pode ser idêntico em qualquer lugar e época, adaptando as pessoas a ele. Algo mudou no arranjo do tratamento médico regular quando Breuer, ao silenciar, pode escutar Bertha. Algo mudou quando Freud escutou não só os relatos de suas pacientes, mas também suas – delas e dele – resistências a seguir falando, e pensou formas espaciais internas no consultório – e nele – para ampliar as possibilidades de manifestação da comunicação inconsciente. Ou quando conversou com pacientes andando por praças e montanhas. Como contra-exemplo, recordo-me de uma anedota verídica: ao final de uma revolta popular pela redução das passagens de ônibus em Florianópolis em 2004, disparada pelo Movimento Passe Livre, a Câmara dos Vereadores decidiu instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para averiguar a planilha de custos e o modelo do sistema de transporte da cidade. Típica CPI cujo fim é o nada. Contrataram consultores da empresa do urbanista Jaime Lerner, então referência na “modernização” do transporte em Curitiba, e estes consultores declararam que o sistema era ótimo: a população e a topografia da cidade é que não se adaptavam bem a ele…

Localização na história, história da localização

A Clínica Pública de Psicanálise fica na Vila Itororó Canteiro Aberto, nas encruzilhadas entre o Bixiga, a Bela Vista e a Liberdade. Bairro de contradições, da classe média e dos cortiços, e de forte vida de rua. A Clínica é um pouco a consequência de um trabalho anterior de análise de militantes na Escola Nacional Florestan Fernandes, a escola de formação do MST, e chega ao Canteiro Aberto a partir do trabalho da artista Graziela Kunsch e sua relação com os moradores e moradoras da Vila expulsos/ removidos/ retirados à força ou por negociação. As famílias foram saídas para que aquele lugar viesse a existir não mais como moradia, mas para fins culturais, seja lá o que isso signifique. Transformação violenta e sem escuta na gestão Serra/Kassab e que ganhou novo estatuto na gestão da Secretaria de Cultura de Haddad, o que representou uma mudança de qualidade, ainda que em profunda contradição. De um espaço “cultural” de mercado de consumo, se bem o entendi, passou a ser pensado como um espaço público em aberto, um galpão utilizado de forma mais espontânea do que artificialmente construída – ou melhor, construída para um uso espontâneo e comunitário. A rigor, passava por fora do radar de prioridades daquela prefeitura e, talvez por isso mesmo, pode se tornar um espaço pré-figurativo num mundo sem futuro, apontando o que poderia/ deveria vir a ser o futuro centro cultural, uma vez que as casas da Vila estejam restauradas. Um lugar onde crianças jogam bola e andam de skate, coletivos propõem atividades diversas, sempre gratuitas por definição. Um futuro centro cultural sendo feito e pensado, criado, vivido, no agora. No sentido de que o povo é quem faz a montagem, o povo é quem faz o setting. Como ponto de partida, a Clínica seria um espaço de acolhimento para os ex-moradores e as ex-moradoras, para que pudessem se reencontrar, falar a respeito da mudança em suas vidas, pudessem desabafar, elaborar, quem sabe até, a partir dali, se re-organizar para lutar pelas suas antigas casas ou por novas formas de habitar o local. Em nome do “público”, foram expulsas. Em nossa dimensão de público, então, faríamos o caminho inverso, acentuando sua presença. Assim como Breuer pensou seu tratamento nos anos 1880: aquele pensamento que fora silenciado, reprimido, separado da consciência e retornara como sintoma, agora seria enunciado, para que o sintoma fosse reconhecido e, quiçá, desfeito. A maior parte das família vive hoje espalhada em três prédios tipo CDHU, em apartamentos de pouquíssimos metros quadrados, sem espaços para brincadeira ou passeio ou o que mais a vida demandar. Pessoas que conviveram por décadas e cresceram juntas, agora estão separadas. A Clínica foi originalmente pensada como um espaço para que aquela história de mais uma vitória do mercado sobre a vida social não fosse esquecida. Dessa ideia chegamos a outras. Passamos a pensar a Clínica também como um espaço para militantes de movimentos sociais (ideia surgida do trabalho na escola do MST e no contexto das lutas contra o aumento nas tarifas de transporte no começo de 2016, quando muitos militantes demonstraram dificuldades emocionais para exercer seu direito de manifestação nas ruas) e para todos e todas na forma de um plantão nas manhãs e no começo das tardes de sábado. Uma proposta abertamente política, de fazer da psicanálise canteiro aberto de trabalho de elaboração para as vítimas de violência do Estado e do mercado. Uma forma de pensar a dimensão pública como espaço se não de reparação, ao menos de explicitação das contradições da nossa vida social.

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(consultório na Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST, montado no mezanino da biblioteca Antonio Candido)

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(ex-moradores da Vila Itororó brincando no consultório da Clínica Pública de Psicanálise sem a mediação dos integrantes da clínica. Foto de Graziela Kunsch)

A Clínica Pública de Psicanálise aponta para a relação entre a cidade e o psiquismo, como se o psíquico mesmo fosse um canteiro aberto, a ser cultivado e conhecido, em relação mútua, entre e através das fronteiras penetráveis do dentro e do fora. A escolha das três palavras que dão nome à experiência não é sem sentido. Clínica, porque se trata da prática, da ação terapêutica, deste fazer, como diria Cornelius Castoriadis, em oposição a ideia de uma técnica a ser reproduzida para um fim pré-determinado, ou mesmo como uma profissão liberal. Infelizmente só há pouco vim a conhecer o inspirador Clínica Peripatética, de Antonio Lancetti, e ali me deparei com a noção de “clínica” como o gesto do médico que se debruça sobre o paciente deitado. Ele adicionou o conceito “peripatético”, portanto, para retomar a dimensão de movimento desse tratamento. Peripatético, o costume de Aristóteles ensinar passeando. Pôr o paciente em pé. Não cronificá-lo, nem na vida, nem no tratamento. No galpão do Canteiro Aberto, que é extensão da rua, o sujeito que procura a Clínica não encontra um hospital, mas um lugar onde pessoas de idades e classes diferentes brincam, fazem coisas circenses, tocam piano, jogam bola, leem, namoram. Uma praça. Situação diferente da que me diz uma paciente que atendo em outros lugares, que se queixa diariamente das idas ao hospital-dia ao qual está vinculada: “Aqui [no hospital-dia] eu venho pra me tratar, mas só me faz lembrar de que estou doente”. Outra usuária de um hospital-dia, com um discurso semelhante, passou a frequentar a Clínica e levar alguns de seus colegas, simplesmente para passar um tempo. Ficavam perto do consultório-aberto, conversavam com quem estivesse por lá, seja analista ou não, participavam das outras atividades que aconteciam simultaneamente. Em retribuição, ela entregava os panfletos da Clínica na rua. E o fixou no muro do hospital-dia para formar um grupo de saída organizado por ela.

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Entre os móveis de formato inusual – os quais muitas vezes usamos para as conversas, os tecidos coloridos e os trabalhadores do canteiro, há uma aposta de injeção de vida na contramão dos trajetos habituais do cotidiano determinado pelo trabalho e consumo, pela noção funcional de saúde e doença e assim por diante. Este lugar altera nosso fazer clínico. Como pano de fundo dessa ideia, e para saber mais sobre a crítica do urbanismo posterior à segunda guerra mundial, que, ao redesenhar as cidades do mundo de acordo com a nova ordem econômica e política, fez delas imagem e semelhança de um shopping center, ampliado e pré-definido, recomendo a leitura de Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade, organizado por Paola Berenstein Jacques.

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Pública é a palavra de ligação. Público, conceito em disputa, ao mesmo tempo desgastado e em aberto. Outro dia, o deputado Rogério Marinho, do PSDB, relator da ‘reforma’ trabalhista, disse que o “excesso de tutela do Estado prejudica gestantes”. Agora leio Ives Gandra Junior, presidente do Tribunal Superior do Trabalho, dizer que trabalhadores podem se automutilar caso as indenizações por acidentes no ambiente do trabalho sejam “altas”… O sistema público de saúde está sob ataque, ao lado de tudo o que é da ordem do coletivo, comunitário. As praças públicas de São Paulo estão em processo de privatização. Os espaços de decisão política cada vez mais impossíveis de serem acessados, ao ponto de desistirmos gradativamente de ocupa-los. Talvez esteja próximo de se realizar o sonho de Margaret Thatcher, primeira-ministra inglesa nos anos 1980. Conhecida também como Dama de Ferro, Maggie quis fazer do neoliberalismo não apenas uma forma tática de reajuste político que prioriza as leis do mercado em detrimento do Estado de bem-estar social, mas algo a transformar a alma das pessoas. A ponto de se tornar uma nova racionalidade que nos deforma, que altera a subjetividade e o jeito de governar, produzir e gerir os recursos, como argumentam Dardot e Laval, em A nova razão do mundo, livro que historiciza a construção do neoliberalismo desde a década de 1930, ironicamente apoiado na institucionalidade do Estado. Isso se desdobra no ideal da pessoa como empresa de si mesma, em concorrência permanente e incansável com as demais, fragilizando os laços sociais, esgotando as energias vitais e responsabilizando o indivíduo, na medida de seu próprio esforço, pela sorte e o azar do sucesso na vida, independente das circunstâncias históricas, de classe, de raça, de gênero. O fim da história, neste mundo aparentemente sem futuro, é a impessoal e inconsciente forma empresa como referência para todas as demais relações – de amor, de trabalho, de saúde, de fé – garantida juridicamente por uma grande empresa responsável por todas, o Estado, organizado agora mais do que nunca como uma agência reguladora e não um mecanismo de equilíbrio das diferenças econômicas artificializadas pela lógica do mercado, cujos efeitos produzem menos sociedade e mais barbárie, como já foi dito há muito tempo.

O que significa, então, retomar, ressignificar a palavra “pública” e colocá-la como mediação entre Clínica e Psicanálise? Essa palavra que pode se referir ao mesmo tempo como a instância responsável pelo cuidado da própria população que a criou e sustenta. Uma forma de auto-cuidado, auto-preservação ativa, que mantém a dimensão de existência social, geração após geração. Público é o mesmo que Estado? Este mesmo Estado regulador da racionalidade neoliberal? Não. Mas o Estado ainda suporta a existência de aspectos de “não-mercado” e, num país como o Brasil, de raízes fortes coloniais, escravocratas, de desigualdades colossais, não me parece termos o privilégio agora de abrir mão de ampliar os aspectos públicos dentro do Estado. Público significa ser de todos e todas? Isso, por consequência, pode justificar, por exemplo, a expulsão das famílias da Vila Itororó daquele espaço que agora será “de todos”? Público significa achatar as singularidades, ofertando serviços (como o linguajar do mercado se insere por todas as brechas!) equânimes para pessoas cujas demandas são diferentes? Poderíamos optar pela palavra Comum, ou Comunitário? Comunitário, no mesmo livro acima citado de Antonio Lancetti, sofre uma crítica justamente pelo aspecto “unitário”, nivelador, enquanto “Comum” abriria amplas perspectivas de compreensão e de co-existências. Comum também vem sendo utilizado como conceito de uma nova forma de instituir a democracia neste mundo distópico. Dardot e Laval definem o comum como “o público não-estatal, que garanta o acesso universal através da participação direta dos usuários na administração dos serviços”, que supera a divisão entre usuários e funcionários.

Mas a partir da aproximação entre o que estou chamando de aspectos públicos dentro do Estado e do público não-estatal dos franceses, há algumas ponderações que gostaria de fazer, pela escolha da palavra “público” e não “comum”. Acredito que Comum, neste caso, neste país, é uma palavra que traz mais perdas do que ganhos associativos. É uma palavra que, a mim, soa como apaziguadora, como se pudesse sugerir um elemento mínimo de igualdade num país radicalmente desigual. Acredito também que o conceito explora muito pouco a dimensão econômica. Como podemos, no Brasil, abrir mão de um instrumento capaz de captar recursos e, através dele, inverter as prioridades de sempre, como se dizia durante o governo Erundina em São Paulo no fim dos anos 1980? Outro dia um rapaz veio até a Clínica e disse que, por muitos motivos diferentes, com variações e significações emocionais distintas, ele só podia estar aqui por ter o direito ao transporte garantido pelo passe livre estudantil. Política pública popular conquistado com luta, que responsabiliza, um pouco mais do que antes, os mais ricos pela sustentação da vida social. Isso aponta para outra semelhança no que os autores franceses chamam de Comum e o que defendo como aspectos públicos do Estado: um circuito de participação política transformadora ativa, de baixo para cima. Há considerações a fazer sobre isso do ponto de vista clínico, com a cautela que a clínica demanda. A participação das pessoas que nos procuram no fazer da clínica pode acontecer de variadas formas. Pela simples aceitação do convite de vir até a Clínica falar sobre a vida, realizando conjuntamente conosco esse momento analítico, essa situação analítica, até contribuir material-afetivamente para sua existência, ainda que não pela troca mediada pelo dinheiro. Como outro dia uma paciente o fez, ao nos trazer fatias de bolo para que nos alimentássemos no intervalo dos atendimentos. Ou quando um menino, que também vai até a clínica, desenhou comigo um campo de futebol de botão, para que jogássemos uma partida, e levou para sua casa o papel-campo e os próprios botões. A participação aqui parece requerer tempo, tempo para que o sujeito expresse sua relação com o cuidado deste espaço ou mesmo expresse um não querer cuidar dele, atacá-lo, divergir mesmo indo, sustentando algumas contradições internas e a própria independência. O tempo é da maior importância para instituir uma cidade, uma sociedade, uma realidade psíquica.

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Nenhuma dessas ideias é nova, é bom que se destaque isso, para não cairmos novamente no discurso de mercado das novidades. Sem levar em consideração formas consistentes de redistribuição das riquezas acumuladas por muito poucos a partir do trabalho da maioria, não acredito ser possível instituir uma nova sociedade realmente democrática. E por ora, ao que me parece, não temos, independente de nosso pensamento mágico, de nosso sonho, outras instituições com a força suficiente pra faze-lo que não o Estado. Contradições.

Minha aposta é que possamos repensar, pela psicanálise, a singularidade dentro do comunitário-solidário, e que a esfera pública é a única capaz de dar sustentação e recursos para garantir a perpetuação desta experiência no tempo. E há algo de especial em uma proposta de transformação das coisas públicas que surge de uma experiência coletiva independente e comunitária, de baixo para cima, que não espera ou depende da sensibilidade e habilidade dos ocupantes provisórios do espaço governamental, sempre inseguro e sob suspeita. Aqui há uma prática instituinte, no sentido que Castoriadis o pensou, quando defendeu a existência de instituições a serviço da autonomia, no lugar das instituições a serviço do mercado e da burocracia. Para que não tenhamos de começar tudo sempre do zero, ou menos do que isso, e depender apenas dos recursos libidinais desejantes – ou dos seus poucos recursos econômicos que sobraram após longas jornadas de trabalho mal remunerado – dos sujeitos ativos no processo, não devemos instituir formas redistributivas de arrecadação de recursos para custear trabalhos como esse, por exemplo? Voltarei à questão dos recursos mais adiante.

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Por fim, Psicanálise. Fazer de escuta e conversa. Ação terapêutica, forma de investigação do psiquismo e dos efeitos da história familiar e social a cada momento, em cada sujeito, com todo seu ineditismo. Forma de tornar explícito o que é implícito numa comunicação espiral dialética, como diria Enrique Pichon-Rivière; ou um trabalho em que o sujeito reconheça seus desejos, seu discurso, que conheça os desejos e discursos dos outros (outros que são também sociais) que operam sobre ele e construa, a partir daí, uma relação de autonomia em relação ao outro, ou com o outro.

Nossa clínica é política, mas não estamos aqui para ensinar ninguém uma nova subjetividade. Ainda que todo o nosso arranjo contribua com o processo de transformação dos sujeitos, como também o faz a forma do consultório tradicional. Há também esta especificidade: uma clínica de psicanálise mas não só da prática tradicionalmente reconhecida como psicanálise: a sessão com um analista e um analisando. Ela brota, deriva, do trabalho de uma artista, integrante do grupo que faz, além do pensamento dialógico sobre o próprio dispositivo, o trabalho de vínculo transferencial com os ex-moradores/as da Vila. Desejamos o uso artístico na Clínica. Desejamos que os artistas e outros trabalhadores afetivos, como agentes comunitários, agentes sociais, antropólogos, historiadores e assim por diante, que queiram trabalhar conosco, possam conhecer ideias específicas que a psicanálise revelou ao mundo sobre algumas das formas como as pessoas se constituem psíquica e socialmente. Isso é socializar o conhecimento, e deixar a psicanálise ser transformada, oxigenada permanentemente por esses outros saberes que se aproximam em muitos pontos. Escolhemos manter “psicanálise” no nome por ser uma palavra que circula pouco entre as classes populares. Sintoma de sua burocratização, elitização e atualmente tímida atuação na esfera pública e popular, assim como um sintoma da rede pública burocratizada, e agora em processo de desintegração interessada pelos governos-mercado, que priorizam outros campos da área psi, em especial as medicamentosas e comportamentais. Acreditamos ser uma tarefa política importante que “psicanálise” faça parte do léxico popular, que lhe pertença também. Uma tarefa que demanda da psicanálise um pensamento contínuo de desconstrução de suas “razões próprias” de funcionamento. A psicanálise também tem o direito de se refazer e se deixar transformar pela vida popular. Nasceu assim. Breuer e Freud eram médicos “de família”, trabalharam também em bairros onde viviam os judeus pobres como a própria família Freud.

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(esta cadeira não foi colocada ali pelos analistas da Clínica. Não sabemos quem o fez. Mas a partir dessa montagem, fez-se uma situação analítica. A imaginação do que é psicanálise estaria sendo incorporada pelos utilizadores ou trabalhadores do canteiro?)

Um espaço de trabalho psíquico, artístico, criativo, instituinte do que, já sendo, pode vir a ser a esfera pública popular, a partir do conhecimento dos efeitos deste mundo na vida psíquica compartilhada e trabalhada entre analista e analisando. Um fazer que trabalha no aqui e agora do sofrimento ou da alegria dos que nos procuram. Produzimos um momento público de cuidado com o interesse de expandi-lo, talvez até mesmo a constituir, ou reconstituir, o sentido, o afeto público como um objeto interno que hoje não é mais tão facilmente reconhecido. A quantidade de pessoas que nos procuram revela a necessidade dessa expansão, a sua importância, a sua relevância como contribuição para a experiência de vida das gerações que agora vivem e das que virão. É uma forma de fazer que definiria como, tomando de empréstimo uma fala do cineasta Eduardo Coutinho, materialismo mágico [3].

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No período em que este texto foi pensado, redigido e re-editado estávamos às voltas com as formas de organização, estrutura e trabalho na Clínica. Por um compromisso público, de transparência, mas também de compartilhamento dos nossos processos – que, quem sabe, pode instigar outros processos – acho importante explicitá-los aqui. Temos algumas instâncias de trabalho, utilizamos alguns nomes hoje que talvez no futuro possam mudar, de acordo com a variação do trabalho a ser feito. Uma delas é a coordenação, composta por mim e pela Graziela Kunsch. A função desta coordenação, mais no sentido de coordenadas, de bússola, é se responsabilizar e sustentar o acordo construído na constituição da Clínica com a Vila Itororó Canteiro Aberto e com os sujeitos políticos com os quais nos comprometemos. Isso significa, mais ou menos, manter os princípios do trabalho, ou o enquadre inicial, dentro do qual os muitos trabalhos no contexto da Clínica podem acontecer. Estes princípios, relacionados com a história do lugar onde estamos e com um desejo político correspondente a nossa trajetória, são mais ou menos os seguintes: 1. ser um espaço para que os ex-moradores e moradoras da Vila Itororó possam elaborar, individual ou coletivamente, a experiência e as consequências cotidianas e afetivas de serem saídos de suas casas; 2. ser um espaço para que militantes de movimentos sociais e demais vítimas de violência do Estado e do mercado – que determina quem pode ou não fazer análise nos moldes tradicionais – possam, igualmente, elaborar os efeitos dessas violências; 3. ser um espaço aberto para todas as demais pessoas que desejam e necessitam de um processo de análise, de conversa, de escuta, sejam moradores do bairro ou não; 4. ser um espaço onde as noções de cultura e de psicanálise podem ser expandidas, com trabalhos artísticos, terapêuticos, analíticos, expositivos (conversas públicas, exposições, jogos, brincadeiras etc.) por pessoas que não necessariamente façam parte da Clínica Pública de Psicanálise, mas vejam nela um lugar para trabalhar em conjunto; 5. a organização das formas de trabalho clínico, de recepção comprometida e séria com as pessoas que nos procuram, dentro deste enquadre proposto, estão sob a responsabilidade de um núcleo clínico-organizativo; 6. os atendimentos e atividades são gratuitos, ou melhor, são tarifa zero. Acreditamos e defendemos numa forma de constituição de vínculo inconsciente e terapêutico sem a mediação do dinheiro.

 

perfilO núcleo clínico-organizativo, hoje, é formado pela artista Graziela Kunsch, e os e as psicanalistas Camila Bassi, Daniel Guimarães, Dafne Melo e Frederico Ventura. Nos reunimos nas manhãs de quinta-feira para conversar sobre o trabalho, que em muitos momentos se trata de coisas conceituais e operacionais, e sobre os casos clínicos ou sobre nossa constituição em rede com o bairro ou outros grupos, por exemplo. Ao redor deste núcleo, há um círculo que pode ser chamado de equipe de apoio, ou equipe ampliada e que conta hoje com as psicanalistas Heidi Tabacof e Maria Silvia Bolguese, que nos ajudam, como supervisoras, a pensar a história das pessoas que atendemos e pensar também as próprias questões do trabalho organizativo. Alguns e algumas novas companheiras psicanalistas e supervisoras, que concordam com os princípios do trabalho, estão em processo de entrar no grupo, e a própria forma de adesão de novos integrantes está sendo debatida pelo núcleo clínico-organizativo, com o suporte das supervisoras. Todos esses termos estão em questão (núcleo, equipe de apoio, supervisão etc.), são apenas referências organizacionais, para não cairmos nas ilusões e perigos da horizontalidade suposta, que esconde estruturas verticais impossíveis de serem anunciadas, denunciadas e democratizadas. Sobre isso recomendo o texto A tirania das organizações sem estrutura, de Jo Freeman. Não é fácil sustentar princípios e renunciar posições em trabalhos de grupo. Mas é importante que exista espaço para que essas coisas sejam ditas, pensadas, trabalhadas, confessadas, inclusive para que integrantes saibam por que estão entrando, com o que concordam, com o que discordam, e até mesmo por que venham a sair do trabalho. A própria ideia de ao menos duas supervisoras – quem sabe mais virão… – é também uma forma de nos proteger do pensamento único, de uma relação idealizada e de subalternidade diante da autoridade. Que seria também um peso que as companheiras supervisoras não estão dispostas a carregar. Um escudo contra vínculos maciços. A ideia de convidar integrantes que vêm de formações fora da psicanálise, e de diferentes grupos e escolas dentro da psicanálise, também passa por aí. Somos um grupo multirreferencial, esse é o nosso desafio e, algumas vezes, nosso limite. E estamos abertos a receber novos e novas interessadas em trabalhar nos arranjos propostos e particulares desse trabalho que, por ora, depende do desejo político como forma de sustentação. No ano passado, quando o trabalho contava com a verba destinada para a artista Graziela Kunsch, havia uma proposta de remunerar os analistas, num valor aproximado ao que seria o de um bilhete mensal de transporte. Esse é um gesto, pensado pela Grazi, de abertura, aos analistas, dos deslocamentos pela cidade, além do não pagamento da tarifa para vir efetuar seu trabalho de escuta e presença. Neste ano esta verba já não existe, mas temos o desejo e o acordo de demandar do centro cultural, ou seja, de alguma forma, da prefeitura, que esta remuneração possa ser feita. Mas sobre isso não há garantias. Flutuamos com a conjuntura.

Aqui há uma aposta bastante importante: a ampliação dos deslocamentos pela cidade, a partir de um processo transferencial afetivo, ou seja, um trajeto distinto da hostilidade e obrigação dos não-caminhos casa-trabalho-casa, ou casa-escola-casa, e com uma companhia engajada, pode ter como consequência a ampliação do repertório de representações psíquicas, dos traços de memória, dos cenários do nosso “mundo interno” pelo qual a gente fantasia. Isso pode ser um ato terapêutico e crítico em si, proporcionando ao sujeito e seu psiquismo maiores saídas para situações dilemáticas, difíceis, truncadas. E isso vale para todos e todas nós, analistas e analisandos e artistas e trabalhadores em geral. Um estudo do Hospital das Clínicas da FMUSP, Estudo epidemiológico dos transtornos psiquiátricos na região metropolitana de São Paulo: prevalências, fatores de risco e sobrecarga social e econômica, que aproxima as noções de falta de mobilidade e aumento de adoecimentos mentais variados, me dá alguma segurança nesta intuição da dialética entre espaço territorial e espaço psíquico. Por isso chamo este texto de O direito à cidade psíquica. Tomo de empréstimo as noções que Henri Lefebvre e David Harvey pensam do termo “direito à cidade”, não apenas como o direito ao acesso às coisas que a municipalidade oferece, mas o direito em si de construir a cidade, de agir política-terapeuticamente na transformação da cidade que nos forma. Direito ainda hoje negado às classes populares. Um privilégio do mercado, mais auxiliado do que interditado pelo Estado. Penso a psicanálise como um urbanismo psíquico crítico e democrático das profundezas e superfícies, das ruas, vielas, corredores e, principalmente, das periferias por onde se desloca, ou é inibida, nossa libido em desenvolvimento. Vale lembrar que vivemos numa cidade em que a média de expectativa de vida aumenta ou diminui radicalmente a depender de sua localização. Por exemplo, de acordo com o Mapa da Desigualdade 2016, da Rede Nossa São Paulo, um morador de Alto de Pinheiros vive em média 25 anos mais que um morador da Cidade Tiradentes. Para complementar este ponto, convido a leitura de um texto que escrevi em 2010, para a revista Urbânia 4, chamado Deslocamento é lugar [4].

Infelizmente a nova prefeitura aumentou de R$ 140 para R$ 190 a tarifa do bilhete mensal e provavelmente assim não poderemos mais ter o valor integral do bilhete.

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O trabalho de atendimento é organizado a partir da procura de ex-moradores da Vila, do encaminhamento de movimentos sociais, de assistentes sociais que trabalham na região, e, por fim, dos plantões abertos aos sábados. Os atendimentos são gratuitos. Ou melhor, não são cobrados. Há um entendimento na feitura da Clínica a partir da ideia de reparação da violência do Estado (expulsão dos moradores) e do mercado (que impede o acesso à psicanálise “regular”) e sobre a importância de bancar uma posição a favor da redistribuição dos frutos do trabalho coletivo e da coletivização dos cuidados. Alguma coisa próxima ao espírito do “pacto social”, pensado por Helio Pellegrino, co-fundador da Clínica Social de Psicanálise do Rio de Janeiro, como continuação necessária do “pacto edípico” – o acordo simbólico de pertencimento que o novo pequeno integrante estabelece com a comunidade humana que o precedeu. Forma de sustentação cidadã,  comunitária e minimamente justa da vida social. Os sujeitos brasileiros, quando ele publicou o famoso texto Pacto edípico e o pacto social já em 1983, trabalhavam muito e pouco recebiam em troca. Crise econômica na transição (ainda) incompleta da ditadura para a democracia de baixa intensidade, como chama hoje Boaventura de Sousa Santos. Não parecemos ter saído daquela situação que marca a história da vida brasileira. Estamos num momento de forte retrocesso social, do retorno agudo da precarização das condições do trabalho precário desde sempre e de controle autoritário sobre práticas e pensamentos utópicos/ progressistas/ críticos que apontam para outra forma organizativa e de controle dos recursos produzidos socialmente. A quebra, a frustração deste pacto, onde os sujeitos oferecem sua contribuição mas não recebem como retorno solidário os suportes de que precisam, para Helio, seria fonte poderosa de consequências antissociais. Isso que será chamado de delinquência, de conduta desviante, como ameaça à sociedade, como se tratassem de sujeitos exteriores a ela. A quebra do pacto social traz consequências graves quando somadas a má recepção da criança neste mundo. Reforça os motivos para violência, consequência da desigualdade histórica brasileira, fruto do encontro demoníaco entre escravidão e exploração moderna do trabalho, ausência de políticas reparatórias, subjetivação conformada e, no limite, forte repressão cotidiana. Helio via duas saídas: uma mais saudável, na qual o sujeito se reconheceria ao lado de tantos outros em semelhante situação, e se rebelaria contra esta forma de sociedade a favor de uma outra. A outra, auto-destrutiva, mais recorrente do que a primeira, a pura violência, ausência de motivos para ligação com o outro, que apenas reforça o mundo que a alimentou.

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Como uma breve deriva, cito o psicanalista argentino Enrique Pichon-Rivière, que define o trabalho terapêutico como processo de passagem da alienação, ou adaptação passiva à realidade, para uma progressiva adaptação ativa à realidade. Cito uma passagem inteira de Uma nova problemática para a psiquiatria, de 1963: “Em nossa cultura, o homem sofre a fragmentação e dispersão do objeto de sua tarefa, criando-se então, para ele, uma situação de privação e anomia que lhe torna impossível manter um vínculo com esse objeto, com o qual conserva uma relação fragmentada, transitória e alienada. Ao fator insegurança diante de sua tarefa vem acrescentar-se a incerteza diante das mudanças políticas, sendo ambas sentimentos que repercutem no contexto familiar, no qual a privação tende a se globalizar. O sujeito vê-se impotente no manejo de seu papel, e isso cria um baixo limite de tolerância às frustrações, em relação com seu nível de aspirações. A vivência de fracasso inicia o processo de enfermidade, configurando uma estrutura depressiva. A alienação do vínculo com sua tarefa desloca-se para vínculos com objetos internos.” Pichon-Rivière pensa a relação entre as frustrações do mundo externo, agora internalizadas que reativam e aprofundam conflitos muito antigos do sujeito. Como pensar estas instâncias, dentro e fora, social e individual, de forma separada?

O psicanalista francês Christophe Dejours diz que “o sujeito pode transferir esse reconhecimento do trabalho para o registro da construção de sua identidade. E o trabalho se inscreve assim na dinâmica da autorrealização. A identidade constitui a armadura da saúde mental. Não há crise psicopatológica que não tenha em seu núcleo uma crise de identidade. E isto confere à relação com o trabalho sua dimensão propriamente dramática. Ao não contar com os benefícios do reconhecimento de seu trabalho nem poder aceder ao sentido da relação que vive com esse trabalho, o sujeito se confronta com seu sofrimento e só a ele. Sofrimento absurdo que só produz sofrimento, dentro de um círculo vicioso, e que será desestruturante, capaz de desestabilizar a identidade e a personalidade e causar doenças mentais. Por isso, não há neutralidade no trabalho em relação à saúde mental.” [5] Pensando como Pichon-Rivière, o sujeito que passa por um processo de transformação em análise, causa um impacto novo no seu ambiente, social, familiar, de trabalho. E este ambiente, por sua vez transformado pelo sujeito, continua transformando-o, num circuito contínuo de desalienação, se as coisas forem bem. O que acontece quando nos desalienamos, mas ao nosso redor o mundo insistir em repetir sua forma de sempre? Na Clínica Pública nos permitimos escutar esta relação mútua entre o social e os efeitos psíquicos nas pessoas e suas comunidades.

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O cotidiano do trabalho na Clínica

As pessoas, que não sabemos se chamamos de pacientes, de usuários, de conversadores, de pessoas que vêm para desabafar, nos procuram por muitos motivos diferentes, como não poderia deixar de ser. Às vezes para ter certeza de que estão ou não com razão sobre determinadas coisas, às vezes pra tentar se localizar na vida e no mundo… De qualquer forma, chegam e encontram uma mesa, onde geralmente está o Peroba. O Peroba trabalha no Canteiro Aberto, sendo o responsável pelas oficinas de capoeira e também como educador da formação de público. Em geral é ele o primeiro rosto da Clínica, a primeira voz e escuta. É ele quem distribui as senhas do plantão, é ele quem faz companhia – enquanto trabalha em outras coisas – para quem está esperando a hora da conversa com o/a analista. É ele que bate um papo para a pessoa que não consegue a senha não sair de lá tão frustrada. Disse outro dia, e acho que gostou, que ele é integrante da Clínica e que seria muito bom se ele quisesse participar das nossas conversas. Do jeito que vejo, todos naquele galpão fazem parte da Clínica, da história clínica das pessoas que nos procuram. As crianças que brincam, os/as trabalhadores/as de limpeza e segurança e assim por diante. Talvez tenhamos muito a aprender com eles e eles conosco.

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Aos sábados fazemos um plantão no final da manhã e início da tarde. Qualquer pessoa pode ir. Oferecemos ao menos quatro senhas por final de semana. Dependendo da quantidade de analistas, o número aumenta. Distribuímos por ordem de chegada, o que é uma forma democrática e ao mesmo tempo não é, já que as pessoas que vêm de mais longe estão em franca desvantagem. A Vila fica numa região periférica, mas no centro da cidade. E é de longe mesmo que vem uma boa parte de pessoas. Inclusive de cidades da Grande São Paulo. Isso demonstra que a demanda por cuidados psíquicos é enorme, é popular, e não apenas “coisa de rico” e que a oferta de cuidados é muito pequena e centralizada. Uma contradição para lidar e denunciar. Como atenuá-la? Ex-moradores/as da Vila Itororó e militantes de movimentos sociais podem nos procurar, sem passar pelo plantão.

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Há um consultório, que foi montado lá mesmo, em comunhão com a equipe da Gamb, um coletivo de marcenaria que trabalha no Canteiro Aberto. Como tudo no galpão, as paredes e até mesmo o divã são móveis, dobráveis, com rodinhas. Não há teto e situamos as paredes diante de uma janela onde se pode ver a Vila Itororó, ouvir a 23 de maio, ver as catedrais, os prédios pobres, os de classe média e de classe média alta… Enfim, a cidade e todas as suas contradições entram no consultório. Num movimento semelhante com a prática do acompanhamento terapêutico, que leva a clínica para a rua. Mas também atendemos fora do consultório, em muitos móveis interessantes, esquisitos, que se assemelham a divãs, mas virados um de frente para o outro. Ou em pequenas salinhas sem parede. Ou na cozinha dos trabalhadores da obra. Ou lá mesmo no canteiro… E tudo isso vai fazendo a fala e a escuta se transformar. Existem coisas que deixam de ser segredos por serem ditas em espaço aberto. Existe o medo da exposição, o cuidado com a fala, que revela mil coisas depois trabalhadas pelo par… Existe inclusive o aprendizado difícil para os analistas em trabalhar num ambiente que parece tão pouco protegido…

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(Freud falava sobre os sonhos como uma janela para o inconsciente, aqui se pode pensar a janela para o inconsciente da cidade? Foto de Graziela Kunsch)

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Outra questão é o arranjo do trabalho, ou melhor, os arranjos. Há quem procure um tratamento, já com uma certa expectativa. Há quem chegue para desabafar e nunca mais voltar, como poderia fazer em um serviço de escuta nas igrejas, ou em busca de orientação mágica como em encontros com o pai ou mãe de santo. Há quem queira vir algumas vezes apenas, ou vir a cada quinze dias… São muitos arranjos possíveis. Mas optamos por permitir um trabalho baseado na relação transferencial continuada. Quer dizer, não atendemos uma única vez quem nos procura, caso a pessoa queira conversar mais vezes. E a pessoa pode construir esse trabalho com o mesmo analista/ a mesma analista, caso queira e caso o/a analista ainda tenha horários disponíveis. Além de apontarmos para a dimensão de que as transformações psíquicas acontecem no interior da relação entre analisando e analista, mais do que nas descobertas arqueológicas ou nas interpretações do que se fala (ou melhor, nas descobertas e interpretações no contexto da relação íntima construída), há também, a meu ver, uma posição política de enfrentamento ao momento de esfacelamento das relações continuadas, permanentes, comunitárias – o que nada tem a ver com impedir as aventuras e os novos encontros, menos ainda com um compromisso com as tradições conservadoras. Os “corujões” de atendimentos impessoais, a terceirização dos cuidados, a falta de constituição de laços, tudo isso está em plena sintonia com a necessária precarização das relações para o estabelecimento profundo do neoliberalismo. Desengajamento, abandono, desamparo. Como poderíamos acompanhar os efeitos das conversas sem esses “retornos”? Trata-se de apresentar um número expressivo de consultas realizadas ou de produzir um trabalho de qualidade, na contramão da liquidez das relações de mercado e na desconstrução das redes de atendimento públicas que abrem caminho para os planos particulares e os dr. Consulta, para não dizer as “análises” instantâneas online? Isso nos coloca um dilema semanal: como conseguir atender novas pessoas ao mesmo tempo que continuamos o trabalho com as que já acompanhamos? É preciso mais analistas? Sim, e estamos em busca de analistas que concordem com nossos princípios, mesmo que possam atender poucas pessoas. É preciso pensar espaços de trabalho de grupo? Sim, mas não apenas para ampliar a quantidade de atendimentos, e sim a partir da qualidade que um encontro grupal oferece. Além dos plantões, esses mutirões de conversa onde são realizadas de 10, 12 a 13 conversas, utilizamos quase todos os dias da semana para os atendimentos continuados. Mas é importante também admitirmos nossa limitação. Não se trata de uma clínica atender a demanda da cidade. Mas de mil clínicas serem criadas e espalhadas no território amplo. Este texto é, sem dúvida, uma espécie de convite e de demonstração de que é possível criar dispositivos dessa forma.

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Há algo fronteiriço aqui entre um projeto independente, que realiza e experimenta no agora uma demanda que pode e deve vir a ser política pública. As circunstâncias políticas convocam posicionamentos, não apenas de resistência, mas também de avanço. Ampliar a esfera pública dentro do Estado, de baixo para cima, de forma não burocrática, me parece uma boa perspectiva e acredito que a Clínica Pública de Psicanálise se insere neste contexto. Sem a instituição da política, todo o projeto corre o risco de deixar de existir, à medida que o desejo, a dureza econômica da vida cotidiana, os recursos libidinais e políticos, se enfraqueçam na geração que a conduz. E se psicanalistas vindos das classes populares quiserem ingressar no trabalho, mas não puderem doar um dia de trabalho sem remuneração? Aqui já abrimos duas frentes com as quais desejo encerrar este texto: o interesse em utilizar a Clínica como espaço aberto de formação e a forma como lidamos com os atendimentos não mediados pelo pagamento em dinheiro.

Psicanálise como um direito

A psicanálise deve ser um direito de todos e todas. Essa concepção aparece desde Freud, no famoso discurso de Budapeste, de 1919 [6]. Mas isso não significa apenas que os privilegiados psicanalistas venham a oferecer seus trabalhos de forma assistencialista. Significa que as classes populares devem ter acesso à formação em psicanálise. Que se tornem psicanalistas também, que possam estudar psicanálise e fazer suas análises, percorrer esse caminho de vir a ser analista.

Concebemos a Clínica Pública de Psicanálise como um espaço de atendimento, convivência, conversa, formação, brincadeira, muito atravessada pela noção dos usos espontâneos da Vila Itororó Canteiro Aberto. Há crianças que brincam lá na salinha, mesmo quando não há ninguém por perto. Não foram poucas as vezes que nos deparamos com brinquedos montados, espalhados, marcas de pés no divã tropical antes de ser estofado. Até pequenas rebeliões contra os brinquedos e plantas puderam acontecer. Já vi gente dormindo no divã, e sabe-se lá o que mais rolou sem que ninguém saiba…

Em breve começaremos a montar a biblioteca, que também será de uso livre, pelo menos enquanto a sala não estiver sendo utilizada para atendimento. Já temos aproximadamente vinte livros e aceitamos doações. Serão livros sobre psicanálise, mas não só. Isso é um gesto de comunicação sobre como a psicanálise não existe sozinha, como foi um saber construído de forma multidisciplinar. Temos também uma página no facebook [7], onde publicamos coisas que dialogam com nosso trabalho. É um espaço também de pensamento público sobre a psicanálise, fora dos circuitos especializados de psicanalistas. E também pode ser um fórum de debate entre psicanalistas que estão por aí, sem sabermos, praticando à sua própria maneira algo num espírito assemelhado.

A Clínica pode ser utilizada também para grupos de estudo. Ou para apresentações de alguma pesquisa. Ou como lugar de conversa pública sobre determinado tema, seja proposto pelo coletivo da Clínica ou não. Ou para conversas incluindo os “pacientes” e trabalhadores do Canteiro Aberto, como acontecem, por exemplo, nas assembleias em alguns hospitais-dia, como o Caps Itapeva. Será que essas pessoas não devem também fazer parte da formulação do trabalho? Temos o interesse de realizar com frequência essas atividades, por exemplo, sobre a relação entre a cidade e o psíquico, as consequências subjetivas das “deformas” trabalhistas e previdenciárias e muitas outras coisas mais.

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Desmonetarizando o inconsciente

Por fim, a questão do dinheiro. Questão difícil e delicada, tabu, de muitas formas, porque se trata de dinheiro. E o dinheiro é algo que constitui e faz estrago, fora e dentro da psicanálise, fora e dentro do psiquismo. O equivalente geral que dá forma para a troca das mercadorias e que se espraia como forma de todas as relações sociais, pensando por Marx. Um dos equivalentes simbólicos inconscientes em uma cadeia associativa que opera nas dimensões amplas e conflitantes de potência, narcisismo, castração, presente, troca, pensando um pouco com Freud. Dádiva e dívida, como li outro dia num texto que não me recordo qual. Penso na música Mother, da banda punk rock Dirt, em que a vocalista diz que sua mãe lhe deu a vida, mas quem lhe deu esse direito de faze-la sentir-se por isso em dívida? Dádiva ou dívida, que palavras são estas as que usamos? São formas de nomear afetos que existem? São nomes que dão forma e institucionalizam certos afetos? São nomes insuficientes para dar conta da variedade desses afetos? É a psicanálise uma mercadoria?

Felizmente podemos escutar, sentir e manejar os efeitos do dinheiro nas relações analíticas que estabelecemos nos consultórios. Algo diferente disso já acontece com os analistas que trabalham na rede pública de saúde mental, de formas muito variadas, mas em relações transferenciais, de vínculo, não mediadas pelo dinheiro, como estamos chamando essa prática. Joel Birman lembra, num texto sobre o tema, que há duas formas de pensar a questão. Do ponto de vista exterior à psicanálise, ou melhor, do ponto de vista do psicanalista no mundo, como seu trabalho, suas expectativas de conforto e qualidade existencial de vida digna, algo que nenhum ser humano deveria deixar de poder sonhar. E do ponto de vista interior à psicanálise, ou seja, os efeitos do dinheiro nas expressões transferenciais, na economia libidinal, por onde essa libido circula, por onde não pode circular, as manifestações de culpa, de controle, de frustração, de implicação do desejo e assim por diante. É possível, portanto, um trabalho analítico sem a fiação pelo dinheiro, sem a individualização des-historicizada e descontextualizada dessa tributação?

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Acredito que sim e acredito também que a psicanálise deve levar em consideração o lugar onde é praticada. Isso também faz parte da montagem, do setting, do enquadre. Estamos no Brasil, e num Brasil ladeira abaixo do ponto de vista da distância entre classes sociais, do ponto de vista econômico, cultural, educacional, o que for. Estamos também num momento em que a relação entre trabalho individual e sua produção particular, a remuneração, o tempo e o dinheiro também já foram em muito ampliadas, desde o período do nascimento da psicanálise. Hoje se debate o trabalho imaterial socialmente produzido e não remunerado[8]; a financeirização do próprio dinheiro que lhe atribui uma abstração de valor ainda maior; propostas sobre rendas básicas para garantir cidadania (aqui incluímos os cuidados psíquicos entre os direitos a serem defendidos)… Os/as psicanalistas não devem querer saber sobre qual solo pisam ao tratar destas questões? Como diria outra banda punk rock, o Fugazi, é preciso criar um novo instrumento de medida sobre o valor das coisas.

Deslocando um pouco, mas não muito, retomo a discussão que propúnhamos no Movimento Passe Livre. O movimento defende que a cidade deve ser acessada por todos e todas, já que todos e todas contribuem com sua construção e manutenção. Para isso, é preciso uma rede ampla e gratuita de transporte coletivo, para que o transporte seja público de verdade, que a cidade seja pública de verdade. Pois um hospital, uma praça, uma escola etc. não são públicos de verdade se os habitantes não podem ter acesso a elas pela cobrança de uma tarifa. E na verdade, diz o movimento, não se trata de gratuidade. Deve se diferenciar custo de tarifa. O custo operacional de um ônibus (salários, manutenção, garagem, reposição de peças etc.) não é exatamente a base do cálculo feito para o valor cobrado pelo seu uso, a tarifa. Muitos outros fatores são inseridos nesse cálculo, muitas formas de pensar economicamente – e muitos interesses conflitantes – produzem valores diferentes até chegar o preço da tarifa. Para o MPL, o pagamento do custo transporte, essa forma material de deslocamentos simbólicos pelo território geográfico e existencial (usando novamente as palavras de Antonio Lancetti), deveria se dar através dos impostos, dos fundos públicos, do orçamento público, que, a nosso ver, deveria ser constituído de forma progressiva. Ou seja, quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, quem não tem nada não paga nada. Assim, produziríamos uma forma política mais próxima de um gesto social-coletivo, apostando nos ganhos de todos com os custos compartilhados proporcionalmente. E é claro que enfrentamos resistências, de classe, do medo do desconhecido, das encarnações das forças mortíferas e auto-destrutivas que circulam por aí.

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Como se pode perceber a coisa é da mais alta complexidade e sobredeterminação. Mas ainda utilizando as colocações de Birman, se há um aspecto externo na relação entre psicanálise e dinheiro, é bom que o saibamos, porque de algum forma coloca a psicanálise no mundo, na realidade, e nos interessa disputar o que é a realidade. Vale a leitura de Cornelius Castoriadis em a Instituição imaginária da sociedade, e sua crítica a uma certa leitura conservadora sobre o princípio de realidade freudiano e a definição marxista vulgar de que a história da humanidade é determinada pelos interesses puramente econômicos como o conhecemos dentro da lógica de acumulação capitalista. Castoriadis, comunista de formação, militante e editor da revista Socialismo ou Barbárie, diz que a redefinição da humanidade como “homo economicus” deveria ser restringida histórica e territorialmente e não expandida para todas as formas de existência humana além daquela faixa estreita europeia de alguns séculos. Essa definição, ideológica no sentido marxista, de ocultação da realidade e adaptação subjetiva aos interesses das classes dominantes de um certo período, faria da filosofia marxista da história um grande propagandeador da subjetividade capitalista. Palavras que definem a alma, desde sempre, para todo o sempre, encerrando o caminhar da história e suas transformações. Reforço a pergunta de Castoriadis: de que princípio de realidade estamos falando? Onde a psicanálise está inserida, ou pensa estar inserida? Onde nós estamos fazendo psicanálise?

A outra ponta levantada por Birman, do ponto de vista interno, da circulação libidinal, interessa igualmente, por entrar no campo simbólico, dos deslizamentos dos conteúdos, da busca por sucedâneos, substitutos, outros caminhos por onde a libido pode circular, inclusive para além do circuito do “homo economicus”. O inconsciente esteve por aí muito antes do dinheiro existir. E se o dinheiro foi inscrito posteriormente no vasto mundo desconhecido das profundezas da alma, não quer dizer que tenhamos de nos remeter a ele prioritariamente. O que é bastante diferente de recalcá-lo, fazê-lo esquecer enquanto ele ainda existe de forma inconsciente, assim como o capitalismo fez com suas formas de funcionamento, em especial a extração de mais-valia, a acumulação a partir de um mais além da exploração do tempo de trabalho alienado, como diria Sergio Rouanet em Teoria crítica e psicanálise. Quer dizer, o esquecimento da acumulação do capitalista a partir da exploração do trabalhador, como que numa cisão entre tempo pago e tempo não-pago, gerador de um excedente não retornado ao próprio trabalhador. Num trabalho cujo produto já é estranho ao desejo do sujeito (cada vez menos temos uma relação verdadeira de vínculo com aquilo que produzimos) e cujo valor é sempre abstrato, mesmo quando entramos num acordo arbitrário de quanto vale cada coisa. Talvez seja possível outras ligações transferenciais para além do princípio da realidade do mercado, sonhar com uma vida cujas ligações sejam constituídas por outros caminhos. E isso nós podemos verificar num arranjo como o da Clínica Pública de Psicanálise Tarifa Zero.

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A coisa está no campo do fetiche. Me recordo de um mito de Ossaim, um dos orixás curandeiros, em suas jornadas peripatéticas de tratamento. Ossaim primeiro cura um rei, que lhe oferece mil riquezas, as quais recusa. Cobra o seu preço, nem menos, nem mais. Depois, ao curar a própria mãe, Ossaim insiste em cobrar o pagamento, para espanto dos irmãos. “O dinheiro era parte da magia, que tem seus encantamentos, fórmulas e preceitos, que nem mesmo Ossaim pode mudar. Ossaim curou a mãe e seguiu seu caminho, como a folha que é livre e o vento leva”, diz o mito publicado por Reginaldo Prandi em Mitologia dos Orixás.

Penso ser possível fazer um pequeno deslocamento, porque dinheiro em Ossaim é uma coisa diferente do dinheiro nas cidades mundanas de 2016 (e Ossaim cobra um mesmo preço, independente de quanto significa para cada sujeito). Há uma magia e um encantamento no processo transferencial, mediador de uma relação analítica. Há expressão de investimento, engajamento. E há magia e encantamento, do tipo fetiche, na mercadoria dinheiro, que se apresenta arbitrariamente como equivalente geral de troca, mas acentuadora de relações assimétricas – a depender de onde se nasceu, como se pode sonhar o trabalho no futuro, quanto cada tipo de trabalho é capaz de produzir e ser remunerado etc. Fetiche é uma outra palavra para feitiço. Há uma discussão tensa sobre o significado da palavra dívida, resíduo prejudicial e de dependência do analisando para com o analista, que o pagamento poderia, digamos, quitar. Questão que pode ser colocada de forma perversa, do tipo “a análise só acontece mediante o pagamento, pagamento de uma dívida que ao mesmo tempo não pode ser quitada”. Se pode pensar também sobre os impedimentos da expansão das possibilidades de vida por conta do dinheiro, da falta de dinheiro, do tempo de vida insuficiente para acumular dinheiro, da incerteza sobre a conjuntura política e econômica que faz o dinheiro desaparecer de uma hora para outra. O dinheiro e seus vértices, de poder, de sobrevivência, de desamparo, do terror e da vaidade, é um dos elementos da mais alta importância na vida psíquica e gatilho para fantasias, sintomas, sem dúvida. E deve ser conversado, elaborado nos enquadres em todo o processo de trabalho. Sendo ele materialmente convocado pelo analista ou mencionado a partir do analisando, no curso de suas associações livres.

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Por que tantas pessoas vêm de tão longe até a Clínica, demorando até duas horas para vir, mais duas para voltar? Sem nos conhecer, sem saber da profundidade do nosso compromisso com elas? Sem sequer saber que coisa é essa de psicanálise? Minha aposta forte está no fato da não mediação pelo dinheiro, na acolhida inédita, pouco ou nada burocrática. No convite em que se espera nada a não ser tudo, quer dizer, o próprio encontro. Sem triagens, sem anamnese, sem preenchimento de fichas. A presença dedicada do outro e nada mais.

Por exemplo, a história de S., uma história do ano passado. Morador do Grajaú, S. chegou bem cedinho num dia de plantão. Pediu para ser atendido antes dos demais. Ao longo da conversa contou que o motivo era econômico: não tinha dinheiro para voltar caso perdesse o tempo da integração do bilhete único. Duas horas e meia de viagem, chegara lá às 9h. No final, saiu correndo do consultório. S., como diria Milton Santos, é um desses exilados na periferia. Mora com a mãe, mas a mãe é empregada doméstica em algum bairro nobre da cidade e, para poupar energia, dorme a maior parte dos dias na casa dos patrões, que é também seu local de trabalho. Aqui já há toda uma conversa sobre a constituição social e seus desdobamentos. Como é isso da pessoa morar no lugar de trabalho? Quer dizer, não é nem morar, é outra coisa. É um não-morar. Mas bem, S. se sente sozinho demais. Fez duas faculdades, uma de turismo, outra de administração, nenhuma reconhecida pelo MEC. Tem 28 anos e até agora trabalhou apenas em telemarketing. Se o trabalho é extensão de nós, de nossa capacidade e subjetividade exteriorizada no mundo e que, em seguida, retorna a nós como significado de nossa potência ou falta de potência, penso o que isso pode produzir em S. em seu único trabalho até agora, que é vender coisas e a si mesmo, à distância. Vez ou outra ele conhece uma moça na internet. Contou de uma pela qual trabalhou quase um semestre para poupar R$ 200,00 e comprar uma passagem de ônibus até o sul do país. Por outra ele foi passar alguns dias no Mato Grosso do Sul. As duas se decepcionaram com o encontro presencial, o acharam pobre. Uma delas perguntou como ele conseguia viver num bairro tão feio. Em todos os momentos de sua fala surgia a questão da distância, no amor e na cidade, e muito tempo daquele encontro foi utilizado para que S. pudesse reconhecer como as misérias do nosso território o tensionam e o fazem sentir envergonhado, culpado, desconfiado de sua própria dignidade. No final da conversa, digo a ele que fazemos um arranjo na clínica de forma que ele possa voltar todo sábado que quiser, ou pode voltar nos sábados que eu esteja lá. Ele responde que voltará quando tiver dinheiro para pagar a passagem. Uma resposta inesperada, como diria Graziela Kunsch, e que nos fez repensar os arranjos do trabalho em 2017. Daí a importância das clínicas na periferia, daí a importância da tarifa zero como um direito que proporciona outros direitos. Se você não pode chegar até a clínica pública, é pública a Clínica?

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É de se pensar, também, nesses termos que marcam as relações no nosso tempo, como crédito e dívida. O que significa hoje dívida e investimento? Abre parêntese, investimento, em psicanálise, vem do alemão Besetzung. Até pouco tempo aqui no Brasil era traduzido por catexia. Recentemente, em novas traduções, passou a se utilizar investimento, por exemplo “investimento da energia libidinal em uma representação psíquica”. Outra palavra possível, de associações menos financeiras e mais territoriais, digamos, é ocupação. Fecha parêntese. Algo importante a ser reforçado: os mais pobres já investem e investem em demasia na sociedade, através de seu trabalho, e de suas produções criativas materiais e imateriais transformadas em valor, apropriados pelo mercado e pela publicidade. Pouco ou nada recebem em troca. Eventualmente a única coisa pública é uma bomba de gás, bomba tarifa zero, cujos estilhaços podem cegar. E esse pouco em troca, como nos ensinou Helio Pellegrino, é capaz de impedir, de frustrar, a entrada do sujeito no pacto social. Esses elementos não podem ficar de fora do pensamento sobre as relações entre pagamento, transferência e análise. Como dizer que S. não investiu, não se implicou naquele encontro analítico, pois não o pagou para mim? Como eu poderia cobrar dele se ele por pouco não tem nem o dinheiro para se deslocar? O sujeito que não tem posse ou dinheiro, o sujeito brasileiro pobre que só tem a seu próprio corpo e sua força de trabalho… Não é “só”, aliás, é tudo. De forma quase nua, ele vai. Por que haveríamos de recusar esse gesto?

Mauricio Lazzarato, sociólogo e filosofo italiano, comenta essa forma de controle do corpo e do espírito que é a dívida. É preciso estar em dívida para trabalhar os desdobramentos emocionais em transferência? É possível não estar em dívida, quitando as parcelas-sessões? Serão as sessões reduzíveis a uma experiência quase financeira, onde a palavra investimento agora já escapa aos sentidos do desejo?

Um trecho de Lazzarato[9]: “O consumidor é objeto de diferentes dispositivos de poder: a publicidade, o marketing, a televisão impulsionam a construir seus objetos de desejo. O neoliberalismo, ao mesmo tempo em que acrescenta a desigualdade de ingresso entre as classes sociais, cada vez mais empurra as pessoas a consumir, como se o acesso ao consumo fosse possível para todo mundo. Os objetos de desejo, as mercadorias, estão sempre disponíveis… em imagens. Primeiro chegam as imagens; depois, as mercadorias. Outra importante transformação da subjetividade se produziu em relação às finanças, que são outro dispositivo de poder. O funcionamento mundial das finanças, dispositivo central do capitalismo, requer a generalização do crédito. Há um século, o crédito era para as empresas. As pessoas viviam da renda de seu trabalho. Hoje, todos podem ter crédito. Nos Estados Unidos há crédito para consumo, educação. Se alguém quer estudar deve endividar-se, obter um crédito. E isto organiza a subjetividade. Um crédito é uma promessa: eu vou pagar. Em 10, 20 anos, vou pagar este crédito. Como se pode assegurar que o crédito será respeitado todo esse tempo? Em nível legal, mas também em nível subjetivo, se constroem mecanismos para garantir que a promessa se cumpra.”

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Sendo o capital tão estruturador e desestruturador de nossas vidas, “espalha” suas características por todas as relações humanas e, através dessas, por todo o mundo – relações onde poder e falta de poder ativam emoções muito primitivas, inconscientes e arcaicas, de desamparo e também de onipotência – essa dimensão do pagar ou não, do que é público ou privado, do que é consumo ou vida, talvez tenha de passar por cada análise. Pelo analisando, mas também pelo analista. E não se trata de politizar vulgarmente o processo analítico, no sentido do desejo do analista sobre o desejo do analisando, mas de poder associar e construir sentidos, independente da direção que aponte. E isso desperta, é claro, questões práticas para os analistas. Afinal, precisamos também viver nesse mundo. Trabalhamos em nossos consultórios. Mas seria o caso de lutarmos por políticas que criem espaços como este em que estamos e que remunerem os analistas com recursos vindos de orçamentos sabidamente públicos, de preferência a partir das taxações conscientemente progressivas de maiores fortunas? É possível existirmos de forma institucional, com independência, como defende Castoriadis na sua proposta de instituições que promovam a autonomia? Não se trata de uma campanha moral, franciscana, contra o conforto que devemos procurar em nossas vidas através de nossa prática. Não há nada de errado nisso, muito pelo contrário. O errado é uma parte significativa não poder desfruta-la. Não fomos nós que inventamos essa máquina, mas podemos ajudar a revela-la. A questão sobre ser ou não análise quando não há esta mediação do dinheiro revela apenas como o feitiço do dinheiro impede até o pensamento acontecer. Existirá psicanálise num mundo pós-capitalista, caso este seja ainda realizável? Como ela será? Ainda podemos nos dar a liberdade de pensar utopias dessa forma? O que mediará a relação transferencial? Se for o caso desta outra relação transferencial pós-dinheiro existir, não será ela acessível aqui e agora, ao menos como possibilidade pre-figurativa?

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O dinheiro não encerra o inconsciente, ainda que esteja nele inscrito. A história da humanidade, onde o dinheiro veio a existir e pode também deixar de existir, não acabou. O dinheiro não é universal e o inconsciente é mais amplo, é mais antigo que ele. É plástico, ainda que não moldável apenas pela razão e ou por decisões que pretendam alterar a rota das coisas de uma hora para outra. Mas como disse Freud, talvez o saudável seja uma combinação entre a neurose, e sua relação tensa com a realidade, e o inconformismo da psicose, que deseja refazer a realidade frustrante. Que essa transformação possa ser tanto externa quanto interna. Se é que a vida vale a pena, há uma demanda urgente, leve o tempo que demorar, para encontrar as potências dela ainda não nomeadas, ou denunciar suas limitações mal nomeadas, encarar o medo do desconhecido que, como disse Wilhelm Reich na segunda parte de A revolução sexual, produziu o retrocesso das relações sociais e, para ele, o refreamento da Revolução Russa. Diante do receio das formas de existir que ainda não existiam, liberadas em pensamento e por algumas práticas experimentais no processo revolucionário, mas sem instrumentos de elaboração psíquica das ansiedades desse mesmo processo, o povo retomou as formas anteriores de vida, desfavoráveis a ele materialmente. Isso é algo que precisamos ter sempre em mente.

É tempo de lembrar uma fala de valor significativo, mas não quantificável, de Antonio Candido, falecido poucos dias antes da redação deste texto, sobre o valor do uso do tempo a favor da vida. Há algo muito próximo disso quando defendemos a relação analítica não mediada pelo dinheiro. Essa fala foi feita na ocasião da abertura da biblioteca da Escola Nacional Florestan Fernandes, a escola de formação do MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, batizada com seu nome. Por coincidência, um dos embriões da Clínica Pública de Psicanálise aconteceu exatamente lá, no mezanino lindo daquela biblioteca. Lá foram atendidos militantes de movimentos sociais da América Latina e do Brasil. Lá tivemos bons encontros, cujo tempo se prolonga na memória dos que vivemos aqueles dias não mensuráveis pela medida do dinheiro.

“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução do trabalhador é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’.”

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Que existam muitos espaços de conversa sobre a vida, com continuidade, com construção de intimidade capaz de, no espaço do tempo e no tempo do espaço, fazer surgir as mais variadas histórias e emoções, numa relação cuja finalidade não é a cura, mas a desalienação sobre si e o mundo, em companhia.

Daniel Guimarães, em companhia de muitos e muitas, entre 19/5/2017 e 26/6/2017

 

[1] “Uma clínica pública de psicanálise”: vilaitororo.org.br/em-obras/clinica-publica-de-psicanalise/uma-clinica-publica-de-psicanalise em junho de 2016.

[2] Como bem disse Marthe Robert em seu A revolução psicanalítica, editora Perspectiva.

[3] “A pessoa se completa no que diz”, da série Encontros, da editora Azougue.

[4] “Deslocamento é lugar”: http://urbania4.org/2011/02/14/deslocamento-e-lugar/

[5] “O sofrimento no trabalho”: http://www.ihu.unisinos.br/171-noticias-2013/520004-o-sofrimento-no-trabalho-artigo-de-christophe-dejours

[6] Trechos deste discurso em: https://www.facebook.com/notes/cl%C3%ADnica-p%C3%BAblica-de-psican%C3%A1lise/a-psican%C3%A1lise-deve-ser-um-direito-de-todos-e-todas/1304669039611693/

[7] Http://facebook.com/clinicapublicadepsicanalise

[8] Para materializar o imaterializável em um exemplo recente: as imagens veiculadas pela mídia das ações policiais a pedido do prefeito João Dória na Cracolândia. Quanto aquelas pessoas, transformadas em zumbis e agora em produto televisivo, terão gerado em audiência, em números depois transformados em negociação de valores de publicidade durante os mesmos programas que veicularam aquelas imagens?

[9] “Atualmente vigora um capitalismo social e do desejo”: http://www.ihu.unisinos.br/39543-atualmente-vigora-um-capitalismo-social-e-do-desejo-entrevista-com-maurizio-lazzarato