É curioso escrever sobre a experiência da Clínica Pública de Psicanálise alguns dias antes do início de suas atividades plenas, quando ainda temos tudo a descobrir sobre os significados que terá nas vidas de quem por ela passar. A história da clínica não começa agora, tem raízes mais antigas. Está inscrita num campo de práticas de psicanalistas que desde muitas décadas consideram a psicanálise como algo que pertence a vida social, que tem algo a contribuir com a coletividade e que, ampliando sua esfera de atuação, no consultório mas também para além dele, pode gerar muitos frutos. Dentro desta tradição, a história da clínica tem raízes mais jovens também. É um desdobramento do encontro com um companheiro de luta e de psicanálise, Marco Fernandes, a quem conhecia há uma década, e com quem iniciei meus estudos e conversas sobre psicanálise. Ele já tinha um percurso no campo e me apresentou o Sedes Sapientiae, instituto bastante importante na história da esquerda brasileira e latino-americana, e na democratização da psicanálise, seja na formação de analistas, seja na criação de sua clínica social. Acho importante trazer o Marco para esse texto porque, infelizmente para nós, ele não pode estar presente no grupo da clínica. Mas por bons motivos, pelos seus compromissos de militância. A encruzilhada pela qual passam psicanálise e luta passou a ser um interesse em comum desde 2012, fazendo parte da nossa amizade cultivada no contexto da luta social – ele como militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, eu do Movimento Passe Livre. Esse cruzamento tem como motor o gesto de preocupação e cuidado destinado ao nosso povo, tão extenuado pela vida difícil do trabalho e das batalhas árduas da sobrevivência. Um desejo político e amoroso para pôr em movimento a criação de uma vida verdadeira nesse país profundamente, historicamente, grosseiramente desigual, sádico até com sua própria população. População que demanda cuidados com sua saúde psíquica e procura acolhida e suporte, não sem razão, nos serviços ofertados pelo poder público. De acordo com dados de 2015 da Secretaria Municipal de Saúde, em quatro anos, somente na rede municipal, o número de usuários de medicamentos tarja preta – antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos – cresceu 47%. Passou de 592,8 mil pessoas, em 2010, para 874,4 mil em 2014. Foram consumidos 166,8 milhões de comprimidos, 52% a mais do que em 2010. Mas é preciso oferecer outras coisas. A cultura de medicação não é suficiente. É preciso mesmo criticar a forte relação entre indústria farmacêutica, as políticas públicas de saúde e o consequente ‘esquecimento’ das psicoterapias, elo mais fraco no mercado. Ainda não parece ser o suficiente a quantidade de debates e exposições sobre o forte limite dos tratamentos medicamentosos, que operam numa relação bastante vertical, que oferece respostas genéricas e homogêneas, sem levar em consideração a história de cada sujeito. Relação onde um dos lados é colocado numa posição de doente, de quem não tem o saber, de pessoa-problema por não ter forças o suficiente para seguir na linha de produção cotidiana que é o mundo do trabalho. Esse jeito de viver realmente nos adoece e estas formas de “cura” perpetuam o ciclo de adoecimento. Pensamos, então, em utilizar a psicanálise como instrumento de emancipação, com fins terapêuticos e de desalienação. E com seu instrumento privilegiado, a escuta, conhecer as formações da subjetividade contemporânea, brasileira, popular. Considerando aqui a psicanálise como prática que faz uma inversão política muito importante: desloca e de certa forma atenua o peso de autoridade historicamente concedido ao médico, e reconhece que a verdade psíquica e a história brotará do próprio paciente, agora sujeito. Que é ele o portador do seu discurso – como nos ensinou Freud, o sonhador é o responsável por encontrar sentido nos próprios sonhos –, mas numa relação com um outro, um “escutador que conversa” e a quem é atribuída alguma expectativa e alguma fantasia. Aqui há um encontro valioso entre características da forma da psicanálise e da forma política para além dela que defendo, uma experiência de relação radicalmente democrática. Nossa primeira experiência aconteceu em 2013, na Escola Nacional Florestan Fernandes, a escola de formação política e cultural do MST, que fica em Guararema (SP), com Marco atendendo militantes de um curso destinado principalmente para latino-americanos. No ano seguinte me juntei a ele, atendendo também brasileiros. Não me recordo as origens de todos os que meu amigo atendeu. Mas de lá para cá passaram comigo pessoas de regiões periféricas e do interior do Maranhão, da Bahia, do Amapá, de Pernambuco, Ceará, Paraná, de Buenos Aires… Pessoas que sequer conheciam essa coisa de psicanálise. Ainda me resta curiosidade sobre como terão retornado. Em que lugar de si guardaram essa experiência? Conversam disso com outras pessoas do seu círculo de amizade ou com seus companheiros e companheiras de vida e de luta? Quanto alcance essa história pode ter! Convidamos o psicanalista e amigo Tales Ab’Sáber, cujo interesse sobre a psicanálise na vida social e numa perspectiva crítica tanto nos inspira, para nos ajudar, conversar e supervisionar os atendimentos. Surgiram ideias. Uma publicação? Um grupo de estudos sobre a formação subjetiva brasileira a partir da literatura? No ano passado a Grazi – não por coincidência também velha militante do Movimento Passe Livre – me perguntou: “E se fizéssemos uma clínica pública lá na Itororó?” Ela já trabalhava no Canteiro Aberto, a princípio como artista, mas sua antiga relação com os ex-moradores fez com que ela fosse colocada num lugar de referência, alguém que os moradores conhecessem, com quem pudessem conversar, falar das consequências do despejo, da separação de pessoas que moraram juntas por tanto tempo, das crianças que deixaram de ter aquele espaço todo para brincar, agora confinadas em apartamentos… E digo antiga porque foi ainda em 2006, no começo do processo de transformação daquela área de moradia para área de interesse cultural, que a Grazi foi até lá para conversar com as famílias e ajuda-las a resistir. Me recordo do dia que fui com ela e numa daquelas casas e com um morador assisti a uma partida da seleção brasileira se preparando para a Copa do Mundo, onde hoje já não se mora ninguém… A ideia, pensada dentro do contexto do trabalho dela como artista, seria criar um espaço para que essas histórias pudessem ser elaboradas pelos ex-moradores, em sua relação tensa, conflitiva, mas também criativa neste centro cultural peculiar, que pode existir sem apagar suas origens e os rastros que deixou para que pudesse estar lá. Seria um trabalho de psicanálise, individual, ou melhor, a duas pessoas? De grupo também? De um trabalho pontual se desdobrou uma clínica ampliada, que atenderá de ex-moradores da Vila Itororó a integrantes de movimentos sociais, também com plantões abertos a qualquer pessoa, num espaço móvel cujo divã foi construído pelos próprios psicanalistas. Estes psicanalistas são colegas e amigos de formação que se interessaram pela experiência e, cada um e uma a seu modo, se inquietam com a questão bastante séria sobre o que significa uma psicanálise no Brasil. São eles e elas Anne Hill, Carolina Binatti, Fabricio Brasiliense, Patrícia Nogueira e Ricardo Cavalcante, este também contribuindo desde o ano passado nos atendimentos na escola do MST, além do próprio Tales Ab’Sáber. Mas o que é isso de uma clínica como arte? Uma clínica no coração de um espaço público – e não um consultório fechado – aberta à experiência de deixar a cidade e as pessoas adentrarem, com uma janela voltada para o antiquíssimo casarão da Vila Itororó, mas com uma construção que proteja o espaço de fala e escuta? Serão seus frequentadores pacientes, analisandos, usuários, ou algum outro nome ainda? Uma pequena vinheta: numa reunião preparatória sobre o espaço, uma criança, que acompanhava os pais numa das visitas guiadas da Vila, entrou correndo no consultório. Pulou no divã. Mexeu nas nossas coisas. Me perguntou: “Adivinha meu nome? É o nome mais irado”. “Não sei”, respondi, “me dá mais pistas?” Ele seguiu causando lá dentro, correndo de cima para baixo, até dizer “é Sonic!” Seu amiguinho, ou irmão, não sei, revelou, era João. E ele saiu chateado, para depois de um tempo voltar e se sentar. “Quero ficar aqui, aqui é a sala da calma”. Uma clínica que pode acontecer fora do consultório? Ou que o consultório vira não-consultório, vira cidade? Vale aqui destacar a forte presença de formação e prática de acompanhamento terapêutico entre os psicanalistas do grupo. Acompanhamento terapêutico é uma ampliação das possibilidades de atendimento, pelos territórios da cidade, não como pano de fundo, ou como trajeto “acidental” e separado do trabalho, mas em correspondência direta com os percursos do território psíquico percorrido no encontro analítico. Psicanálise como descobrimento, como investimento afetivo desses territórios, assim complexificando e amplificando também os sentidos da “cidade psíquica” pela qual o sujeito pode circular. Construir uma cidade verdadeiramente democrática não é também uma intervenção terapêutica? Me parece que a ideia de uma Clínica Pública de Psicanálise é algo de primeira importância nesta conjuntura em que há um ambiente sensivelmente mais conservador na sociedade. Neste momento em que a cultura do trabalho exaustivo virou um ideal a ser defendido. Cultura estranha que nos faz pensar a vida apenas individualmente, em competição com os que estão ao nosso redor, que nos faz virar máquinas que descansam, refletem e analisam cada vez menos. Nestes tempos em que um governo ilegítimo, autoconstruído através do uso da força sutil mas bastante violenta, por fora dos processos de decisão coletivos, põe em ação um plano bastante grave de dissolução de espaços e políticas públicas voltadas para o interesse coletivo, em benefício dos interesses de mais acumulação do mercado e de seus pouquíssimos representantes… Parafraseando uma antiga carta de princípios do Movimento Passe Livre, a Clínica Pública de Psicanálise não é um fim em si mesma. Ela foi precedida por outras experiências e é do nosso interesse que seja multiplicada, em centros culturais públicos, em equipamentos diversos, em pequenos coletivos que queiram construi-la à sua maneira, com suas particularidades, nos bairros, nas escolas… É necessário criar coisas para a direção do comum, do comunitário. É necessário cuidarmos dos nossos sofrimentos, cultivar a vida. Que impacto terá a clínica na vida desta comunidade, da cidade, e mesmo no mundo da psicanálise? E se muitas outras clínicas públicas, populares, comunitárias – espaços de conversa, onde se fala e escuta – forem construídas por aí? Daniel Guimarães, 29 de junho de 2016

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It is peculiar to write about the experience of the Public Psychoanalytic Clinic a few days before the beginning of its full activities, when we still have everything to discover about the meanings that it will engender on the lives it will cross. The history of the clinic does not begin now, it has deeper roots. It is inscribed in a field of practices by psychoanalysts who have, from many decades ago, deemed psychoanalysis as something that belongs in social life. They sustain that psychoanalysis has something to do with collectivity, and, by widening its sphere of action, in the consulting room but also beyond, it can bear many fruits. In this tradition, the history of the clinic feature younger roots too. It yields from meeting a comrade of the struggle and of psychoanalysis, Marco Fernandes, whom I have first met a decade ago, and with whom I have started my studies and talks about psychoanalysis. He had accumulated some experience in the field and he introduced me to Sedes Sapientiae, a very important institute in the history of the Brazilian and Latin American Left, also playing a key role in the democratization of psychoanalysis, be it in the training of analysts, be it in the creation of its social clinic. I think it is important to bring Marco into this context because, unfortunately for us, he can’t be present in the clinic group. But for good reasons, because of his other militant commitments. The junction at which psychoanalysis and social struggle cross became a common interest in 2012, as part of our friendship cultivated in the context of social struggle – he as a militant of the Landless Rural Workers Movement, and I of the Free Pass Movement. This crossing is driven by the gesture of concern and care towards our people, so extenuated by the hard life of labour and by the tough survival battles. A political and loving desire to put in motion the creation of a true life for this country, so deeply, historically and grossly unequal, even sadistic with its own population. A population who demands care of their psychic health and who seeks solace and support, not without reason, in the services offered by public agencies. According to data of the year 2015, issued by the Health Municipal Secretary, in four years, just in the municipal networkx, the number of users taking controlled substances – antidepressants, anti-psychotics and anxiolytic – grew 47%. It increased from 592,800 people in 2014 to 874,400 in 2015. The amount of pills taken was 166,8 million units, 52% more than in 2010. But one has to offer other things. The culture of medication is not enough. One has to criticise the strong relationship between the pharmaceutical industry, public health policies and the consequent ‘forgetting’ of psychotherapies, the weak link of the market. It seems that the amount of debates and expositions about the strong limit of medicative treatments have not been enough. This limit operates in a very vertical form, providing generic and homogeneous answers, not taking into consideration the history of each subject. This is a relation where one of the sides is placed in the position of the sick person, the one who does not hold the knowledge, the problem-person because he or she does not has the sufficient strength to carry on at the daily production line that is the world of work. This way of life really makes us sick and these form of “cure” perpetuates the cycle of sickness. We consider, then, using psychoanalysis as an instrument for emancipation, for therapeutic and reversal of alienation purposes. And with its privileged tool, listening, we seek to discover the formations of contemporary, Brazilian, popular, subjectivity, Considering here psychoanalysis as a practice that operates a very important political inversion: it displaces and in a certain way attenuates the weight of the authority historically given to the doctor, and recognises that the psychic truth and history will flourish from the patient him or herself, now made subject. Recognises that he or she is the bearer of discourse – as taught by Freud, the dreamer is responsible for finding the meaning in his or her own dreams – but in a relationship with one Other, a “listener who talks” and to whom some expectation and some fantasy is attributed. Here there is a valuable encounter of the forms of psychoanalysis and of politics form, beyond which, I defend, lies [Autor des14] an experience of a radically democratic relationship. Our first experience took place in 2013, at Florestan Fernandes National School, the political and cultural school of the landless movement, the MST, in Guararema (SP). Marco talked to the militants of a course aimed chiefly at Latin Americans. In the following year I joined him, also seeing Brazilians. I do not remember the nationalities of all those seen by my friend. But, since then, there were people from many peripheral or inland regions of Brazil like Maranhão, Bahia, Amapá, Pernambuco, Ceará, Paraná, even from Buenos Aires… People who had never heard of this thing called psychoanalysis. I still wonder how much transformed they had been as they returned to their homes… in what place within themselves have they kept this experience? Do they talk about this with their friends or their comrades of struggle and of life? How wide the reach of this experience can be! We invited psychoanalyst and friend Tales Ab’Sáber, whose deep and old interest on psychoanalysis in social life and on a critical perspective, from the Left, so much inspires us. He helps us, talks and supervises the sessions. Ideas emerged. A publication? A study group about the Brazilian subjective formation grounded on literature? Last year, Grazi – not by coincidence also an old militant of the Free Pass Movement – asked me: “What if we did a public clinic at Vila Itororó?” She was already working at the Open Construction Site, first as an artist, but her old relationship with the former dwellers propitiated her to be put in a position of reference, someone the dwellers knew, with whom they could talk, talk about the consequences of their removal, about the separation of people who have lived together for so long, about the children who ceased to have all that space to play in, now confined to flats…. And I say so because it was in 2006, at the beginning of the process of that transformed the housing area into an area of cultural interest, that Grazi went there to talk to the families and help them resist. I remember the day when I went down there with her and, in one of the houses,  I watched with a dweller the national squad play a football match in preparation for the World Cup, a place where today nobody resides… The idea, considered within the context of her work as an artist, would be of creating a space where these histories could be elaborated by the former dwellers, in their tense, conflictive relationship, also a creative rapport, in this peculiar cultural centre, which could exist without erasing its origins and the traces that it has left so that the centre could exist. Would it involve individual psychoanalysis work, or, better said, involve two people? A group? A wider clinic has unfolded from a circumscribed job. It will attend people ranging from Vila Itororó’s former dwellers to social movement members, and there will also be surgeries open to any person, in a moveable place, using a divan that was built by the psychoanalysts themselves. Such psychoanalysts are colleagues and friends from school who are interested in the experience and, each one in his or her own way, are concerned with the very serious issue of what psychoanalysis means in Brazil. They are Anne Hill, Carolina Binatti, Fabricio Brasiliense, Patrícia Nogueira and Ricardo Cavalcante, the latter also contributing since last year to the sessions at MST, besides Tales Ab’Sáber, a true teacher. But what about a clinic as art? A clinic at the heart of a public space – and not a closed consulting room – open to the experience of leaving the city and the people walk in, with a window opening to the very old mansion of Vila Itororó, but with a structure protecting the space for listening and talking? Will their users be patients, analysands or some other name? A brief vignette: during a preparatory meeting about the space, a child, who accompanied his parents in one of Vila Itororó’s guided tours, stormed into the consulting room and jumped on the divan, going through our stuff, then challenging me: “Guess my name? It the coolest name”. “I don’t know”, I answered, “give me a clue”. He continued to make a mess, running around until he exclaimed “it is Sonic!”. His little friend, or brother, he revealed, was called João. And then he left, bothered, only to soon return and sit down. “I want to stay here, this is the room of quiet”. Can a clinic exist outside the consulting room? Or, what does the consulting room becomes then, does it become the city? It is worth noting the strong features of therapeutic follow-up in the background and practice of the group’s psychoanalysts.  Therapeutic follow-up constitutes a widening of attending possibilities, throughout the city’s territories, not as a background, or as an “accidental” trajectory and separated from work, but in direct correspondence with the paths of the psychic territory trodden in the analytical encounters. Psychoanalysis as discovery, as an affective investment in such territories, this exemplifying and widening also the meanings of the “psychic city” in which the subject can move. Isn’t building a truly democratic city also not a form of therapeutic intervention? It seems to me that the ideia of a Public Psychoanalytic Clinic is something of prime importance in this conjuncture where there is a considerably more conservative environment in the city. At this moment in which the culture of exhaustive work has become an ideal to be defended. A strange culture that leads us to think of life only individually, in competition with those who are around us, which turns us into machines who rest, reflect and analyse to an increasingly lesser degree. In these times when an illegitimate government, self-built through the use of a subtle but very violent force, outside collective decision processes, sets in motion a very serious plan for the dissolution of public spaces and policies geared towards collective interest, for the benefit of the interests of further accumulation of the market and their very few representatives… Paraphrasing an old manifesto by the Free Pass Movement, the Public Psychoanalytic Clinic is not an end in itself. It has been preceded by other experiences and it is in our interest to see them multiplied, in public cultural centres, in diverse types of installations in small collectives willing to build them in their manner, with their particularities, in the neighbourhoods, in the schools… It is necessary to create things towards the commons, towards community. We need to care for our sufferings, cultivate life. What impact will the clinic have on the life of this community, on the city, and even on the world of psychoanalysis? And what if many other public, popular, community clinics – talking spaces, where there is listening and speaking – are built there? Daniel Guimarães, 29th of June 2016

[:] –end ver en) –end ver en)