Uma clínica pública de psicanálise, por Daniel Guimarães

É curioso escrever sobre a experiência da Clínica Pública de Psicanálise alguns dias antes do início de suas atividades plenas, quando ainda temos tudo a descobrir sobre os significados que terá nas vidas de quem por ela passar. A história da clínica não começa agora, tem raízes mais antigas. Está inscrita num campo de práticas de psicanalistas que desde muitas décadas consideram a psicanálise como algo que pertence a vida social, que tem algo a contribuir com a coletividade e que, ampliando sua esfera de atuação, no consultório mas também para além dele, pode gerar muitos frutos.

Dentro desta tradição, a história da clínica tem raízes mais jovens também. É um desdobramento do encontro com um companheiro de luta e de psicanálise, Marco Fernandes, a quem conhecia há uma década, e com quem iniciei meus estudos e conversas sobre psicanálise. Ele já tinha um percurso no campo e me apresentou o Sedes Sapientiae, instituto bastante importante na história da esquerda brasileira e latino-americana, e na democratização da psicanálise, seja na formação de analistas, seja na criação de sua clínica social. Acho importante trazer o Marco para esse texto porque, infelizmente para nós, ele não pode estar presente no grupo da clínica. Mas por bons motivos, pelos seus compromissos de militância.

A encruzilhada pela qual passam psicanálise e luta passou a ser um interesse em comum desde 2012, fazendo parte da nossa amizade cultivada no contexto da luta social – ele como militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, eu do Movimento Passe Livre. Esse cruzamento tem como motor o gesto de preocupação e cuidado destinado ao nosso povo, tão extenuado pela vida difícil do trabalho e das batalhas árduas da sobrevivência. Um desejo político e amoroso para pôr em movimento a criação de uma vida verdadeira nesse país profundamente, historicamente, grosseiramente desigual, sádico até com sua própria população.

População que demanda cuidados com sua saúde psíquica e procura acolhida e suporte, não sem razão, nos serviços ofertados pelo poder público. De acordo com dados de 2015 da Secretaria Municipal de Saúde, em quatro anos, somente na rede municipal, o número de usuários de medicamentos tarja preta – antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos – cresceu 47%. Passou de 592,8 mil pessoas, em 2010, para 874,4 mil em 2014. Foram consumidos 166,8 milhões de comprimidos, 52% a mais do que em 2010.

Mas é preciso oferecer outras coisas. A cultura de medicação não é suficiente. É preciso mesmo criticar a forte relação entre indústria farmacêutica, as políticas públicas de saúde e o consequente ‘esquecimento’ das psicoterapias, elo mais fraco no mercado. Ainda não parece ser o suficiente a quantidade de debates e exposições sobre o forte limite dos tratamentos medicamentosos, que operam numa relação bastante vertical, que oferece respostas genéricas e homogêneas, sem levar em consideração a história de cada sujeito. Relação onde um dos lados é colocado numa posição de doente, de quem não tem o saber, de pessoa-problema por não ter forças o suficiente para seguir na linha de produção cotidiana que é o mundo do trabalho. Esse jeito de viver realmente nos adoece e estas formas de “cura” perpetuam o ciclo de adoecimento.

Pensamos, então, em utilizar a psicanálise como instrumento de emancipação, com fins terapêuticos e de desalienação. E com seu instrumento privilegiado, a escuta, conhecer as formações da subjetividade contemporânea, brasileira, popular.

Considerando aqui a psicanálise como prática que faz uma inversão política muito importante: desloca e de certa forma atenua o peso de autoridade historicamente concedido ao médico, e reconhece que a verdade psíquica e a história brotará do próprio paciente, agora sujeito. Que é ele o portador do seu discurso – como nos ensinou Freud, o sonhador é o responsável por encontrar sentido nos próprios sonhos –, mas numa relação com um outro, um “escutador que conversa” e a quem é atribuída alguma expectativa e alguma fantasia. Aqui há um encontro valioso entre características da forma da psicanálise e da forma política para além dela que defendo, uma experiência de relação radicalmente democrática.

Nossa primeira experiência aconteceu em 2013, na Escola Nacional Florestan Fernandes, a escola de formação política e cultural do MST, que fica em Guararema (SP), com Marco atendendo militantes de um curso destinado principalmente para latino-americanos. No ano seguinte me juntei a ele, atendendo também brasileiros. Não me recordo as origens de todos os que meu amigo atendeu. Mas de lá para cá passaram comigo pessoas de regiões periféricas e do interior do Maranhão, da Bahia, do Amapá, de Pernambuco, Ceará, Paraná, de Buenos Aires… Pessoas que sequer conheciam essa coisa de psicanálise. Ainda me resta curiosidade sobre como terão retornado. Em que lugar de si guardaram essa experiência? Conversam disso com outras pessoas do seu círculo de amizade ou com seus companheiros e companheiras de vida e de luta? Quanto alcance essa história pode ter!

Convidamos o psicanalista e amigo Tales Ab’Sáber, cujo interesse sobre a psicanálise na vida social e numa perspectiva crítica tanto nos inspira, para nos ajudar, conversar e supervisionar os atendimentos. Surgiram ideias. Uma publicação? Um grupo de estudos sobre a formação subjetiva brasileira a partir da literatura?

No ano passado a Grazi – não por coincidência também velha militante do Movimento Passe Livre – me perguntou: “E se fizéssemos uma clínica pública lá na Itororó?” Ela já trabalhava no Canteiro Aberto, a princípio como artista, mas sua antiga relação com os ex-moradores fez com que ela fosse colocada num lugar de referência, alguém que os moradores conhecessem, com quem pudessem conversar, falar das consequências do despejo, da separação de pessoas que moraram juntas por tanto tempo, das crianças que deixaram de ter aquele espaço todo para brincar, agora confinadas em apartamentos… E digo antiga porque foi ainda em 2006, no começo do processo de transformação daquela área de moradia para área de interesse cultural, que a Grazi foi até lá para conversar com as famílias e ajuda-las a resistir. Me recordo do dia que fui com ela e numa daquelas casas e com um morador assisti a uma partida da seleção brasileira se preparando para a Copa do Mundo, onde hoje já não se mora ninguém…

A ideia, pensada dentro do contexto do trabalho dela como artista, seria criar um espaço para que essas histórias pudessem ser elaboradas pelos ex-moradores, em sua relação tensa, conflitiva, mas também criativa neste centro cultural peculiar, que pode existir sem apagar suas origens e os rastros que deixou para que pudesse estar lá. Seria um trabalho de psicanálise, individual, ou melhor, a duas pessoas? De grupo também? De um trabalho pontual se desdobrou uma clínica ampliada, que atenderá de ex-moradores da Vila Itororó a integrantes de movimentos sociais, também com plantões abertos a qualquer pessoa, num espaço móvel cujo divã foi construído pelos próprios psicanalistas. Estes psicanalistas são colegas e amigos de formação que se interessaram pela experiência e, cada um e uma a seu modo, se inquietam com a questão bastante séria sobre o que significa uma psicanálise no Brasil. São eles e elas Anne Hill, Carolina Binatti, Fabricio Brasiliense, Patrícia Nogueira e Ricardo Cavalcante, este também contribuindo desde o ano passado nos atendimentos na escola do MST, além do próprio Tales Ab’Sáber.

Mas o que é isso de uma clínica como arte? Uma clínica no coração de um espaço público – e não um consultório fechado – aberta à experiência de deixar a cidade e as pessoas adentrarem, com uma janela voltada para o antiquíssimo casarão da Vila Itororó, mas com uma construção que proteja o espaço de fala e escuta? Serão seus frequentadores pacientes, analisandos, usuários, ou algum outro nome ainda? Uma pequena vinheta: numa reunião preparatória sobre o espaço, uma criança, que acompanhava os pais numa das visitas guiadas da Vila, entrou correndo no consultório. Pulou no divã. Mexeu nas nossas coisas. Me perguntou: “Adivinha meu nome? É o nome mais irado”. “Não sei”, respondi, “me dá mais pistas?” Ele seguiu causando lá dentro, correndo de cima para baixo, até dizer “é Sonic!” Seu amiguinho, ou irmão, não sei, revelou, era João. E ele saiu chateado, para depois de um tempo voltar e se sentar. “Quero ficar aqui, aqui é a sala da calma”.

Uma clínica que pode acontecer fora do consultório? Ou que o consultório vira não-consultório, vira cidade? Vale aqui destacar a forte presença de formação e prática de acompanhamento terapêutico entre os psicanalistas do grupo. Acompanhamento terapêutico é uma ampliação das possibilidades de atendimento, pelos territórios da cidade, não como pano de fundo, ou como trajeto “acidental” e separado do trabalho, mas em correspondência direta com os percursos do território psíquico percorrido no encontro analítico. Psicanálise como descobrimento, como investimento afetivo desses territórios, assim complexificando e amplificando também os sentidos da “cidade psíquica” pela qual o sujeito pode circular. Construir uma cidade verdadeiramente democrática não é também uma intervenção terapêutica?

Me parece que a ideia de uma Clínica Pública de Psicanálise é algo de primeira importância nesta conjuntura em que há um ambiente sensivelmente mais conservador na sociedade. Neste momento em que a cultura do trabalho exaustivo virou um ideal a ser defendido. Cultura estranha que nos faz pensar a vida apenas individualmente, em competição com os que estão ao nosso redor, que nos faz virar máquinas que descansam, refletem e analisam cada vez menos. Nestes tempos em que um governo ilegítimo, autoconstruído através do uso da força sutil mas bastante violenta, por fora dos processos de decisão coletivos, põe em ação um plano bastante grave de dissolução de espaços e políticas públicas voltadas para o interesse coletivo, em benefício dos interesses de mais acumulação do mercado e de seus pouquíssimos representantes…

Parafraseando uma antiga carta de princípios do Movimento Passe Livre, a Clínica Pública de Psicanálise não é um fim em si mesma. Ela foi precedida por outras experiências e é do nosso interesse que seja multiplicada, em centros culturais públicos, em equipamentos diversos, em pequenos coletivos que queiram construi-la à sua maneira, com suas particularidades, nos bairros, nas escolas… É necessário criar coisas para a direção do comum, do comunitário. É necessário cuidarmos dos nossos sofrimentos, cultivar a vida. Que impacto terá a clínica na vida desta comunidade, da cidade, e mesmo no mundo da psicanálise?

E se muitas outras clínicas públicas, populares, comunitárias – espaços de conversa, onde se fala e escuta – forem construídas por aí?

Daniel Guimarães, 29 de junho de 2016