Experimentos de viver junto

Relato dos três dias de encontro do Laboratório Vila Itororó: Experimentos de uma vida em comum, realizado entre 18 e 20 de janeiro de 2018
Por Bárbara Lopes

De que cultura estamos falando? Como produzir uma vida comum em meio à experiência urbana? Estas foram questões recorrentes ao longo dos três dias do Laboratório Vila Itororó: experimentos de uma vida em comum. Realizado de 18 a 20 de janeiro, o laboratório se propôs a pensar coletivamente o que é, o que pode ser e como pode funcionar a Vila Itororó. Participaram cerca de 50 pessoas, entre ex-moradores, frequentadores do espaço e outros interessados. “Por que o modo como as pessoas vivem e atribuem sentido ao espaço não é cultura? Existe uma dimensão mais ampla de cultura, tendo a moradia como lugar central. O objetivo do laboratório é debater como o espaço pode abrigar atividades com esse conceito mais amplo”, explicou na abertura Fábio Zuker, organizador do encontro com Helena Ramos e Alana Moraes. A programação do seminário mesclava falas de convidados e momentos participativos e “mão na massa”.

“A Vila surge no começo século 20 e nunca deixa de ser construída, como um espaço com moradia e lazer, clube e parque. A vida compartilhada estava colocada na Vila desde o início”, contou Zuker, constituindo um conjunto arquitetônico inusitado para o bairro da Bela Vista. A Vila foi tombada e, em 2006, declarada área de utilidade pública pela prefeitura e estado,  e acompanhada de projetos que previam transformá-la em centro cultural. Isso acarretoua retirada de seus moradores ao longo da década seguinte e, com eles, a vida que existia ali. Com muitaresistência, conseguiram ser alocados em CDHUs da região central: o que para muitos é uma vitória, para outros é uma forma de perpetuação de violência, já que não conseguem pagar as parcelas.  Em 2015, e com o início das obras de restauro , a Vila começou a viver novamente com o Canteiro Aberto, que instaura uma praça aberta no canteiro de obras para debates sobre a Vila e sua relação com o bairro e usos livres.

Jurandy Valença, coordenador de Centros Culturais e Teatros na Secretaria Municipal de Cultura, e Luiz Fernando de Almeida, diretor do projeto de restauração da Vila Itororó, encontraram na história de Frankenstein, como um personagem feito da colagem de fragmentos de corpos, uma imagem para desvendar o espaço, com sua mistura tanto arquitetônica como de usos. “É importante porque é um retrato da cidade. Dentre equipamentos e tombamentos, pouca coisa representa mais os processos mais intensos de transformação na passagem do século 19 ao 20”, destacou Luiz Fernando. Jurandy ressaltou que a Vila Itororó é diferente de todos os outros equipamentos da secretaria de cultura: “Tem uma obra aberta, canteiro público com atividades. Que corpo é esse? Continua sendo um desafio em termos de gestão”.

A Bela Vista, que abriga a Vila, é também uma colcha de retalhos, como foi apontado por Vivian Moreno Barbour, que apresentou um mapeamento sociocultural do território em que se insere a Vila e o modo como ela é vista por moradores e trabalhadores do bairro. A região vive uma tensão que ao mesmo tempo atrai e repele os interesses do capital imobiliário. Por um lado, tem uma localização estratégica, entre o centro e a região da avenida Paulista; por outro, tem muitos imóveis tombados e está fragmentado em lotes pequenos, o que dificulta a instalação de grandes empreendimentos. Tem uma grande oferta de serviços e, ao mesmo tempo, muitas carências. As principais, de acordo com a pesquisa, são os espaços para lazer, áreas verdes e restaurantes a preços populares. Segundo ela, isso possibilita que a Vila Itororó se estabeleça como um novo paradigma de bem cultural, que não precisa ser uma coisa só e ter um único entendimento de cultura.

Diversidade, identidade e ancestralidade foram elementos que surgiram no primeiro dia do laboratório, quando o público se dividiu em três grupos e se debruçou sobre perguntas genéricas relacionadas a três assuntos: vida comunitária, cultura e cidade. A proposta era que a partir desses debates, os participantes elegessem dois temas que pudessem, nos dias posteriores, se materializar em propostas para o funcionamento da Vila. No grupo que debateu o assunto ”cultura”, os participantes destacaram o reconhecimento de práticas do cotidiano, a resistência como prática cultural que constitui o Bixiga e o encontro entre tradição e inovação. O grupo que debateu ”cidade” ressaltou que a moradia está em primeiro lugar, a importância da vida das calçadas como ponto de encontro e o deslocamento urbano. A casa da vó foi a metáfora escolhida pelo grupo que se concentrou sobre ”vida comunitária”, como um espaço onde existe acolhimento, cuidado, ajuda mútua e que, mais do que planejado, é aberto ao imprevisível.

Casa da vó

A imagem da casa da vó ressoou no segundo dia do laboratório. Os ex-moradores Camila Santana e Edivaldo Santos lembraram da vida na Vila Itororó, das brincadeiras e das festas coletivas. O caráter comunitário dessa convivência se acentua na comparação com a atual vida nos apartamentos. Os antigos moradores foram divididos em três locais – alguns sequer conseguiram atendimento -, prédios com unidades habitacionais pequenas e poucas áreas comuns. Ambos participam do Coletivo Riacho, nascido no Canteiro Aberto e que realiza ali atividades como a Festa Dezembrina, que inaugurou a Cozinha Pública da Vila Itororó.

A pesquisadora Bianca Santana levou fotos de sua avó e dos locais onde morou e passou boa parte da vida para falar sobre mulheres negras e vida comunitária. Ela caracterizou a Vila Itororó como um quilombo: um território negro, que resiste pela fuga, pelo enfrentamento, mas também pela criação de uma comunidade. São as estratégias de compartilhar a comida, o gás, o trabalho de cuidado com as crianças, que permitem que as mulheres negras – que têm a menor renda média dentre os estratos sociais – continuem sustentando suas famílias. “Se as trocas acontecessem somente no mercado, a vida não seria possível”, reiterou.

Foi também a partir da perspectiva das mulheres que a antropóloga Alana Moraes abordou o conceito do comum – o espaço de relações que não é regulado nem pelo mercado nem pelo Estado. Exemplos do comum são o compartilhamento de cuidados, de saberes, a festa, cursinhos populares, a Wikipedia, as ocupações urbanas – a vida na casa da vó. Apesar de coexistirem, o capitalismo, para se constituir e para continuar existindo, está em constante ataque contra o comum. Na transição para o capitalismo, isso se deu com a perseguição contra as mulheres durante a chamada caça às bruxas, a colonização e os cercamentos das terras comunais. A tentativa de destruir o comum segue até hoje com a produção de um regime de medo, em que os laços de confiança se esgarçam e as pessoas se isolam em condomínios murados, e de dívida, que deixa de ser uma forma de regulação da vida comunitária e se torna permanente e impagável. Ainda assim, o comum não é uma utopia, mas existe em experiências concretas, como as da Vila Itororó, que podem ser potencializadas.

A dinâmica que se seguiu propunha que as pessoas participassem das conversas ao redor dos temas debatidos e elencados na noite anterior, construindo propostas concretas para a Vila Itororó. Dessa forma, circulando entre os grupos, levavam e deixavam informações, ideias, inspirações. Em todos os grupos, as conversas e propostas giraram em torno de três eixos principais: a ampliação de recursos que permitissem uma vida comunitária aberta para a cidade, como a instalação de banheiros com chuveiros e estruturas para compartilhamento de materiais e conhecimentos; formas de organização, com autogestão e banco de horas para troca de serviços; e a preservação das memórias do espaço, tanto antigas quanto recentes. Em todos os casos, esteve presente a defesa de que a Vila Itororó volte a ser um local de moradia.

Uma cultura em obras

No sábado, último dia de encontro, as atividades do Laboratório começaram pela manhã e era possível testemunhar a potência da vida do Canteiro Aberto da Vila Itororó: pessoas chegando para as sessões da Clínica Púbica de Psicanálise, umas tantas treinando esgrima, outras na oficina de culinária na Cozinha Pública, que preparava o almoço dos participantes no seminário, e também aquelas que entravam apenas para olhar, jogar pingue-pongue ou descansar um pouco.

Essa abertura ao acaso e a porosidade às necessidades e interesses das pessoas foram pontos destacados por Jean Tible, professor da USP, em sua fala sobre o comum. Para ele, há exemplos mais transitórios de experiências do comum– como as ocupações de praças na recente onda de protestos – ou mais permanentes, como nas ocupações de moradia. Em todos os casos, tratam-se de exemplos da gestão comum da vida, formas radicalmente democráticas de se organizar a comida, a segurança, a biblioteca, etc. Ao traçar uma linha transversal entre mercado e Estado, o comum é também uma forma de produção, que está sob constante tentativa de captura pelo mercado. A gentrificação é um exemplo disso: grupos criam uma nova forma de vida em determinada região e isso a torna mais atraente para o capital imobiliário. Jean também ressaltou que a construção do comum passa por entender como a cidade funciona, um mapeamento afetivo, das relações, mas também de suas infraestruturas materiais, como água e esgoto.

Responsável pela concepção curatorial do Canteiro Aberto, Benjamin Seroussi defendeu uma ideia de cultura como construção contínua. É comum pensar em cultura como uma peça de teatro, uma exposição, uma roda de capoeira – como se cultura fosse algo que tivesse lugar e horário para acontecer: “a cultura foi segregada das outras esferas da vida. Como se morar, trabalhar, cozinhar não fossem cultura”. A cultura estando sempre em construção, não fica pronta – o mesmo vale para a Vila Itororó. “A gente vive de promessas de futuro que nunca acontecem. Quando São Paulo vai ficar pronta? A gente vai esperar ficar pronta para usar? Que ideia!”, continuou. As práticas e os interesses das pessoas mudam, portanto, recomendou que os participantes não projetassem propostas e estruturas permanentes, mas flexíveis como o mobiliário do Canteiro Aberto, construído em uma oficina coletiva a partir de material de descarte de uma exposição, e que se adapta de acordo com a atividade que ali se realiza.

Outras formas de pensar e de pensar na Vila fizeram parte do Laboratório. Primeiro, uma prática corporal conduzida por Julia Ruiz, que começou o exercício questionando se existe alguma prática que não seja corporal, ou seja, se práticas tidas como “intelectuais” também não seriam uma forma de usar o corpo. Depois, o almoço coletivo, preparado na Cozinha Pública.

O período da tarde foi para o planejamento estratégico das propostas que surgiram nos dias anteriores. Conduzido por Carol Ayres, consultora ambiental, tinha como objetivo elaborar um plano de ação que coordenasse e alinhasse as atividades que poderiam acontecer na Vila. Para isso, os participantes deveriam pensar não apenas no que seria feito, mas também em prazos, recursos, parcerias, oportunidades e desafios. Ao descer aos detalhes, surgiram questões importantes, difíceis e, por isso mesmo, muito produtivas. No caso do banco de horas, um mecanismo para regular as trocas de serviços dentro da comunidade, uma questão era como criar equivalências: por exemplo, uma hora cuidando de crianças vale o mesmo que uma hora em atividades de manutenção? Como ampliar a vida comunitária sem artificializar algo que acontece ou deveria acontecer organicamente na vida da cidade? Como combinar uma ideia de comunidade, com laços de confiança entre as pessoas, com espaços abertos a qualquer pessoa numa metrópole como São Paulo? Como não esperar um futuro longínquo, para já começar a agir no presente?

No encerramento, Fabio Zuker descreveu como viu o espaço da Vila Itororó, que fora fechado e tornado sem vida aguardando as obras e projetos. “Aqui era um galpão abandonado, onde não havia nada. Só o que havia eram muitas certezas”, conta, ao se referir aos projetos que previam que a Vila abrigasse museus, lojas de design, restaurantes, sem conexão com a história local e o território. “Abrir o canteiro foi uma forma de colocar dúvidas”. A potência do Laboratório está tanto nos seus resultados como nesses desafios e na possibilidade de encará-los experimentando e criando formas de estar juntos, com enfoque no lugar da moradia como estruturante da Vila Itororó.

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