Narrar as contra-histórias de São Paulo

A palestrante Poty Porã (dir.), ao lado de Cida Santana, ex-moradora da Vila Itororó. Foto: Graziela Kunsch
A palestrante Poty Porã (dir.), ao lado de Cida Santana, ex-moradora da Vila Itororó. Foto: Graziela Kunsch

Narrar as contra-histórias de São Paulo
Relato do evento “Uma pequena contra-história de São Paulo”, realizado em 30/01/2016
por Isabella Rjeille

Na ocasião das celebrações do aniversário de 462 anos de São Paulo foi organizada uma programação, em uma tarde de sábado de pré-carnaval, na qual múltiplos eventos disputavam a atenção com o aquecimento dos blocos que começavam a tomar as ruas da cidade. Aguardávamos ansiosamente o público para a primeira atividade do evento Uma pequena contra-história de São Paulo, que aconteceu no Canteiro Aberto da Vila Itororó. Durante toda a tarde, no Galpão da Vila, o processo de formação da cidade foi abordado pelas narrativas deixadas à margem da história oficial. Perspectivas negras, indígenas e imigrantes guiaram algumas das discussões, bem como as transformações urbanas levadas pelo capital financeiro e os processos de silenciamento e apagamento que seguiram nesta esteira. Tais narrativas também foram abordadas pelo viés da arquitetura e do urbanismo, na maneira como comunidades se organizam em bairros e dão a eles uma fisionomia própria. O contexto da Vila Itororó e a história particular do Bixiga e seus arredores foram cenário desta tarde de conversas, amplificando as discussões acerca destas contra-histórias.

Falar do corpo através dele

A primeira atividade teve como público alvo as crianças, em especial, as meninas.

Conduzida pela artesã Luciene Santos, a escritora Kiusam de Oliveira e pelo percussionista Edson Luna, a contação de histórias, seguida de uma oficina, integrou adultos e crianças em uma única experiência. O público foi guiado pelo som do atabaque em movimentos contínuos, como uma dança que se transformava gradualmente em uma marcha. Estávamos preparados para entrar em um universo no qual se fala do corpo através dele. Aos poucos, os adultos deixaram de lado a “seriedade” de sua posição em relação ao público infantil e se permitiram experimentar as histórias contadas por Luciene de maneira lúdica.

Iniciamos a oficina confeccionando as bonecas Abayomi – um brinquedo e um amuleto, símbolo da resistência de mães africanas trazidas como escravas para o Brasil, um vínculo simbólico com seus filhos e filhas e uma promessa de reencontro. Estas bonecas eram confeccionadas com retalhos de tecidos das saias das mulheres que vinham a bordo dos navios tumbeiros com intuito de acalentar suas crianças. Não possuíam boca, nariz ou olhos; o tecido revelava a origem de sua dona, pois cada povo possui seus tipos de tecidos e estampas tradicionais. Estas bonecas eram deixadas com as crianças de forma que a guardassem por muito tempo; era uma maneira de reconhecer os filhos após chegarem ao Brasil – Abayomi, em Iorubá, significa “encontro precioso”.

A oficina seguiu para uma contação de história. O livro de Kiusam, O mundo no Black Power de Tayó, fala sobre uma garota cujo nome significa “felicidade” em Iorubá e que no seu black power “carrega diversos mundos”. Os mundos de Tayó, representados nos enfeites que a garota acumulava em seus cabelos, também eram os mundos de seus ancestrais africanos. A história de Tayó abriu um espaço para discussão e troca de experiências entre o público acerca do cabelo afro e da afirmação de sua natureza. Entre muitos relatos, a busca constante pelo alisamento por parte das mulheres, para suprir a exigência racista de uma escola ou empresa, era frequente. Aos poucos, com o desenrolar da história, as meninas puderam descobrir nos próprios cachos, uma beleza inigualável, um símbolo de ancestralidade e força.

Após a oficina, uma pausa para o almoço com comida típica de camarões feita pela Adeline Etang – uma receita que leva feijões brancos cozidos com legumes e temperos distintos. Apesar do sabor incomum à culinária brasileira, a comida trazia um sabor altamente familiar.

Seguimos a programação para a oficina Nosso cabelo não é ruim; ruim é o racismo, dirigida pelas mulheres do coletivo Abayomi Cabelereiras, parte do grupo de Mulheres da Ocupação Esperança (Osasco), que tem como proposta um salão de beleza cujo foco é tanto o atendimento estético das mulheres da região, como a promoção de debates de feministas entre as freguesas. A atividade se baseou em uma oficina de turbantes e cuidados com os cabelos cacheados.

Tanto a contação de histórias quanto a oficina partiram do cabelo para discutir questões raciais, de gênero e classe que se imprimem nos padrões normativos voltados ao corpo feminino. As discussões se desdobraram com a naturalidade e despretensão de uma troca de experiências entre mulheres, revelando a potência revolucionária deste simples encontro.

Esta forma de abordar questões de gênero no cotidiano de mulheres, me recordou a projeção do filme 13 horas de Rebelião da artista boliviana María Galindo, integrante do coletivo anarquista Mujeres Creando, que havia acontecido alguns dias antes, na Casa do Povo. Longe de discussões acadêmicas acerca dos feminismos, o filme de Galindo era um registro das ações do Coletivo que permitiam com que diferentes mulheres – a mãe, a trabalhadora, a motorista, a adolescente, entre outras – pudessem criar suas formas de protesto e expressão. Em uma das ações, Galindo realizou uma “passarela feminista”, um dispositivo que deu voz a estas mulheres e na qual cada uma pôde, livremente, elaborar uma “roupa/fantasia” e trazer uma mensagem de protesto. Com as mensagens impressas, costuradas, montadas, pintadas em seus corpos, caminhavam em praça pública, atraindo olhares (por vezes chocados) dos passantes. No filme de Galindo, o corpo era o meio e a mensagem, assim como nas ações das meninas da Abayomi Cabeleireiros, ou nas formas de narrar de Luciene, Kiusam e das tantas outras participantes das oficinas.

Terra x território

Seguimos para um debate com o artista Jaime Lauriano e a educadora Poty Guarani que trouxe a perspectiva Guarani – povo originário destas terras – de questões que surgiram com a invasão portuguesa e que persistem ainda hoje em agentes atualizados. Poty apontou para o imaginário paulista, que trata o índio como parte de um passado idôneo, ou como algo distante destas terras e ressalta que, no aniversário de 462 anos da cidade, uma das figuras celebradas como herói é a do bandeirante. Ou seja, uma figura que simboliza a expansão do território brasileiro através do extermínio e da escravidão de povos que se colocavam “em seu caminho”. Os bandeirantes representam o progresso seletivo e são atualizados na imagem dos ruralistas que, por vezes, se mascaram em discursos sustentáveis para continuar “regando suas plantações com sangue indígena”, afirmou Poty.

Durante sua fala, a educadora apontou para a janela da Vila Itororó e propôs uma reflexão: para as pessoas cujos bandeirantes são heróis, olhar as “ruínas” da Vila é ver um empecilho para o crescimento imobiliário na região, sem pouco se importar com as pessoas que consideram aquele espaço como sua “terra”. A distinção entre terra e território se fez marcante durante toda a fala de Poty, como algo que distingue a relação dos povos indígenas e dos não-indígenas com o espaço em que habitam. O território é propriedade enquanto a terra é o lar, a mãe, provedora de vida, um espaço afetivo, acima de tudo. Quando estes dois conceitos se sobrepõem, é necessário lutar para além da aldeia, é preciso sair às ruas, fechar avenidas, ir ao congresso nacional, pontua Poty. A educadora fez um elogio à maneira como a Vila Itororó e sua história recente estão sendo reestruturadas, em diálogo constante com os ex-moradores, uma maneira de não deixar com que aquela “terra” se torne “território”[1].

Em seguida à fala da educadora, Jaime Lauriano iniciou sua apresentação com uma música do coletivo Frente 3 de Fevereiro, Quem policia a Polícia?, aproximando as questões vividas pelos povos indígenas com as questões vividas pelos negros e negras brasileiros. Em sua produção como artista, Jaime busca realizar uma genealogia dos símbolos do Estado Brasileiro, porém subverte-os com outras maneiras de olhar aquelas representações, em um resgate das contra-narrativas não representadas.

Jaime Lauriano_Monumento às Bandeiras, 2015-2016_Mixed media_18 x 9 x 7 cm_Photo Filipe BerndtA primeira obra mostrada por Jaime é o Monumento às Bandeiras (2016), cuja imagem estampou a capa do evento da Vila Itororó. Nesta obra, o artista reconstituiu em uma escala diminuta, uma réplica do Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, com cartuchos de munições utilizadas pelas Forças Armadas Brasileiras e pela Polícia Militar, fundidos para composição da obra. Este anti-monumento aproxima às figuras do exército e do policial militar ao do bandeirante em um único objeto. O genocida de outrora, responsável pela expansão política e econômica do território brasileiro, é atualizado na imagem dos guardiões do Estado e do progresso seletivo da classe média e alta brasileiras, “cuja cor de pele é, por vezes, suficiente para garantir características específicas para ser considerado como um corpo protegido ou sujeito às violências policiais” conclui o artista. Jaime finalizou sua apresentação com uma frase de uma de suas obras; trata-se de uma afirmação proferida por um policial militar ao enquadrar jovens negros na periferia de São Paulo: “Vocês nunca terão direito sobre seus corpos”. Para ele, esta frase resume a história de dominação e poder que rege a narrativa hegemônica do Brasil. Ou seja, uma história de violência que se imprime sobre os corpos e cujos resultados, configuram-se em etnocídios guiados pela expansão e hegemonia de uma só cultura. Portanto, abordar o corpo dentro do contexto das contra-histórias – e, de fato, empoderar estes corpos, seja através dos cabelos, da música, da maneira com que se organizam, se alimentam – foi essencial naquela tarde de sábado.

Poty finaliza a mesa comentando a similaridade das questões enfrentadas pelos negros e negras no Brasil com a dos povos indígenas. No entanto, afirma que, enquanto os negros e negras foram marginalizados, os povos indígenas foram varridos da História do Brasil.

O bairro do Bixiga: entre permanências e transformações

A programação acerca das contra-histórias de São Paulo se completa ao trazer a perspectiva da arquitetura e do urbanismo, ou de como o tempo é também um dado construtivo na paisagem de bairros que resistem a avalanche de mudanças e apagamentos promovidos pela especulação imobiliária, a gentrificação e a expansão do que Poty chamou de “território”.

O contexto do Bixiga foi trazido para a mesa através da pesquisa de Yuri Quevedo, pesquisador e cenógrafo, que tomou a obra do arquiteto e artista Flávio Império como ponto de partida para entender as mudanças da cidade dentro do microcosmo do bairro.

Yuri apresentou o contexto da cidade no final dos anos 1960, época da filmagem do documentário Pequena ilha da Sicília de Flávio Império, uma época em que São Paulo passava por diversas transformações sociais e políticas, dentre elas a construção do Minhocão, a continuação das obras da radial Leste e o início do projeto do elevado do Bixiga.

O documentário Pequena ilha de Sicília, produzido em 1975, é composto por diversos rolos de Super 8 que Flávio produziu para a disciplina de “Ecologia Urbana” na FAU-USP, ministrada por Aziz Ab’Saber.  As imagens coletadas pelo artista buscam situar o bairro dentro de uma cidade em constante transformação – as diferentes sobreposições arquitetônicas são capturadas em closes nas fachadas com datas, placas e variados tipos de iluminação noturna. O bairro não é um cenário, mas uma espécie de personagem. Segundo Yuri, criar uma historicidade para as imagens era uma preocupação real de Flávio neste projeto. O artista estava interessado em mostrar a cidade não como um documento de um tempo estanque, mas que naquelas ruas e prédios conviviam tempos distintos e simultâneos.

Fábio Zuker, mediador da mesa e curador adjunto do Canteiro Aberto da Vila Itororó, relembra a militância de Flávio Império em relação à preservação da Vila. O arquiteto levantava a questão da importância do bairro em relação àquele lugar; para ele, a Vila Itororó não fazia sentido sem o bairro do Bixiga, que estava sendo “esquartejado” por avenidas. Assim, questões sobre como preservar a Vila, uma vez que o bairro estava se descaraterizando, apareceram em meados dos anos 1970 e ainda são pertinentes para o projeto de restauração daquele espaço. Fábio completa, dirigindo a questão para a atualidade e para o trabalho que está sendo feito hoje: “qual será o público deste centro cultural que estamos construindo? Em que medida cultura e moradia podem caminhar juntas?”.

José Lira, arquiteto, professor da FAU-USP e ex-diretor da Casa da Dona Yayá reiterou que ainda existe no Bixiga algumas características fundamentais que não foram devoradas pela lógica autofágica da metrópole e do desenvolvimento econômico. O bairro conseguiu manter alguns elos que fizeram com que a população que morava ali se organizasse e não se dispersasse. O bairro manteve sua fisionomia nítida, como ainda podemos observar, após assistir ao filme do Flávio Império e perceber que alguns prédios permanecem; a vida que pulsa ali é muito similar a do filme, uma sensação anacrônica de permanência (e resistência) em meio ao avalanche de mudanças.

Para finalizar, Lira abriu a discussão entre os palestrantes, o público e os organizadores do evento: o que fazer com o resgate das casas da Vila Itororó? Mais um museu? Mais um centro cultural para servir de parque de diversões para uma elite que vem de outros bairros? Mais uma “cantina pedagógica e exemplar”? Citou o trabalho de mapeamento de artes e ofícios da Casa da Dona Yayá como uma maneira de integrar a produção cultural própria do bairro com um espaço de cultura que existe ali e reforça o quão importante é este diálogo com o bairro, questionando se a Vila Itororó mobiliza estes autores invisíveis (artistas, artesãos) que existem ali e que não possuem uma articulação coletiva.

Fábio respondeu afirmando que os anseios da equipe curatorial da Vila vão na mesma direção dos apontamentos de José Lira, complementando com uma pergunta: “o que significa discutir publicamente este espaço?” Ressalta, assim, que os principais interlocutores do atual projeto são os moradores do bairro e os ex-moradores da Vila – o primeiro e principal público de todos os projetos que nascem ali.

Graziela Kunsch, responsável pela formação de público do projeto, mencionou o formato adotado, um “canteiro aberto”, com algo em permanente construção. Diz que o que acontece ali não vai determinar o que a Vila Itororó será no futuro, pois eles não possuem tal poder (as decisões finais sobre os usos são da prefeitura). Mas, no presente, o canteiro existe como um lugar de experimentação, que busca estimular pertencimento e inspirar a população do bairro e outros grupos a se sentirem acolhidos e acolher aquele lugar no seio do bairro. Ainda que esta seja uma tarefa árdua e conquistada aos poucos, admite Graziela.

Pensar moradia como cultura está no cerne do projeto e foi um dos tópicos discutidos entre os presentes na mesa e o público. Que concepção de cultura é esta que está estritamente ligada ao consumo, que exclui a maneira como as pessoas se organizam e inventam seus modos de viver de sua alçada? Para além de criar um centro cultural integrado a um projeto de moradia popular, o projeto de restauro da Vila Itororó olha para um pensamento de cultura que já existe ali e busca amplificar a riqueza deste conhecimento específico.

Naquela tarde, o Canteiro Aberto catalisou diversas inquietações acerca de como a cidade é vivida por seus moradores e ofereceu um lugar para o diálogo. Uma outra forma de pensar a cultura, longe da concepção do consumo e do mercado cultural, pareceu possível. A reflexão acerca do restauro da Vila, por mais que esteja atrelada ao passado daquele lugar, durante o evento, se mostrou enraizada no presente, utilizando toda a potência deste tempo para afetar outros possíveis agentes.

[1] É importante ressaltar que a Vila Itororó foi um local que sempre teve como uso prioritário o uso residencial e que as famílias que ali viveram nas últimas décadas foram retiradas para que o local pudesse se transformar em um centro cultural. A atual gestão do espaço propõe repensar a ideia de cultura, incluindo um projeto de moradia em seus planos e uma programação que busca receber pessoas que estariam excluídas em projetos similares de “centros culturais” que servem à especulação imobiliária.