Relato de uma tarde com o arquiteto Francesco Careri Por Marina Leonardi Foto: Renata Ursaia No primeiro dia de aula de seu curso na Università degli Studi Roma Tre, o arquiteto Francesco Careri e seus alunos deixam o campus, andando completamente sem direção. Ao pôr-do-sol, tendo percorrido dez ou quinze quilômetros, interrompem o trajeto para retomá-lo, na semana seguinte, do ponto onde haviam parado. “Procuramos caminhar com um olho são e outro estrábico”, conta Careri: “o primeiro visa o projeto – a região que queremos mais ou menos explorar; o segundo, estrábico, visa tudo aquilo que pode desviar nosso percurso. O olho ‘desviante’ sempre ganha, pois é aquele que leva às zonas mais interessantes.” Há mais de vinte anos, Francesco Careri pratica o caminhar como forma de percepção, de apropriação e de transformação da paisagem. Em 1995, foi cofundador do Laboratorio d’Arte Urbana Stalker/Osservatorio Nomade, coletivo que realiza intervenções experimentais para estimular o convívio, a hospitalidade, a sociabilidade e a dimensão lúdica da vida nas cidades. Em 2002, publicou o livro Walkscapes: o caminhar como prática estética, que ganha agora uma edição em português pela editora Gustavo Gili. Nesse livro, Careri traça uma história da percepção da paisagem através do ato de caminhar, inserindo sua própria prática no contexto de uma “genealogia caminhante” de longa data: do nomadismo primitivo às vanguardas artísticas do começo do século XX, da Internacional Letrista à Internacional Situacionista, do minimalismo à land art. Por ocasião da publicação de Walkscapes no Brasil, Careri foi convidado a participar da última Flip – a Festa Literária Internacional de Paraty –, cuja programação tem aberto espaço, há alguns anos, para discussões sobre arquitetura e urbanismo. Aproveitando sua passagem por São Paulo, na manhã do dia 5 de julho, o Centro de Pesquisa e Formação do SESC convidou Francesco Careri para falar sobre seu livro. À tarde, a Vila Itororó Canteiro Aberto propôs ao arquiteto que participasse de uma caminhada pelo bairro do Bexiga, seguida de uma conversa em torno das relações entre moradia e cultura. No ponto de encontro combinado para o início da caminhada, Careri, impressionado com o número de participantes (cerca de cinquenta), explicou as regras do jogo: íamos andar sem uma rota pré-estabelecida, com as únicas condições de passar pelo Teatro Oficina e terminar na Vila Itororó. Ao longo do trajeto, qualquer um poderia propor um desvio. “Por exemplo, se um de vocês tiver um amigo que mora no último andar daquele prédio, pode propor que caminhemos todos até lá.” Muitos de nós rimos, surpresos com esse método de deambulação tão distante do modo objetivo e apressado com que nos deslocamos cotidianamente na cidade. E seguimos pela avenida Nove de Julho, adentrando o Bexiga pela rua Dr. Lourenço Granato, onde fica a sede da Escola de Samba Vai-Vai. Enquanto alguém contava a Careri a história da presença negra no bairro, mencionando um remanescente de quilombo que sobrevivera ali até alguns anos atrás, passamos em frente a um sobrado do início do século XX. “Uma casa italiana!”, sorriu Careri. Um de nós propôs que desviássemos o caminho para passar em frente à Escola Estadual Maria José – a Mazé –, na rua Treze de Maio. A escola foi uma das mais de 200 instituições paulistas ocupadas por estudantes entre novembro e dezembro de 2015, em protesto contra a reorganização da rede estadual de ensino imposta pelo governo do Estado sem nenhum diálogo com a comunidade escolar. A ocupação da Mazé teve especial repercussão na mídia com a divulgação de um vídeo que mostrava a ação truculenta da Polícia Militar em uma tentativa de desocupar o local. No dia da nossa visita, os alunos estavam em férias e uma funcionária da escola nos deixou entrar, contanto que não tirássemos fotos nem gravássemos vídeos. Ela abriu o portão, e seguimos por um corredor que levava às salas de aula e a um pátio coberto usado durante o recreio. Separando o pátio do corredor, mais uma porta com grade. E grades entre o pátio e o jardim descoberto, grades quadriculando a cobertura translúcida, grades isolando o pátio da rua e fechando o lance de escadas que levava ao andar de cima. Subimos, atravessamos outro corredor ao longo do qual se sucediam as portas das salas de aula, descemos pelo lado oposto. Careri perguntou se seria possível sairmos da escola por uma porta diferente daquela pela qual havíamos entrado. Mas a escola só tinha essa entrada, e a solução foi sairmos, todos, andando de costas. Pela rua Conselheiro Carrão, atravessamos a Rui Barbosa e seguimos até a Major Diogo, que pegamos à esquerda em direção à Radial Leste. Ao passar debaixo do viaduto Júlio de Mesquita Filho, estávamos em um desses lugares esquecidos – zonas de sombra que, na opinião de Careri, eliminamos de nossos mapas mentais por não corresponderem à ideia que temos de cidade. Para o arquiteto, a prática do caminhar – e, sobretudo, de se perder – pode nos levar a preencher os vazios da nossa geografia mental, combatendo o processo que ele chama de “amnésia urbana”. Dos baixios do viaduto, saímos quase em frente ao Teatro Oficina, lugar emblemático do Bexiga e de São Paulo, projetado por Lina Bo Bardi e habitado, desde sua inauguração, pela trupe do diretor José Celso Martinez Corrêa. Percorremos a rua-palco que atravessa o teatro de um lado ao outro e saímos no terreno desocupado que abraça o edifício. Começava a escurecer quando chegamos ao ponto final do nosso percurso: o galpão onde hoje funciona o projeto Vila Itororó Canteiro Aberto, centro cultural temporário pensado como uma “grande praça pública” cujas apropriações podem inspirar os futuros usos da Vila. Fomos recebidos pelo curador Benjamin Seroussi, que nos convidou a uma breve visita pelo pátio de casas da Vila Itororó. “Quando entram no canteiro, a primeira coisa que os visitantes querem saber é ‘o que vai ser’ e ‘quando vai ficar pronto'”, disse Seroussi. “A essas perguntas, respondemos com outros questionamentos. Não sabemos o que vai ser: este é justamente o tema do debate que levantamos, no qual procuramos envolver os antigos moradores da Vila, os habitantes do Bexiga e a população da cidade como um todo.” Pondo em diálogo outros atores além dos arquitetos, a equipe de ativação cultural do Canteiro Aberto procura fazer do restauro da Vila a oportunidade para um debate maior que, para além dos aspectos técnicos e estéticos, incita a repensar a história, os usos da memória, as concepções de cidade e a própria noção de cultura. Desse debate resulta um processo de transformação no qual os possíveis futuros da Vila Itororó são imaginados e construídos de forma permanente e coletiva. Um processo, portanto, necessariamente distinto daquele que ocorre quando um projeto de restauro elaborado por uma equipe de especialistas é tomado como definição unívoca do destino de um bem cultural público. Depois de uma pausa para um pic-nic coletivo, sentamos em roda para uma última conversa com Careri. A proposta era discutir as relações entre moradia e cultura – tema central do debate que o projeto Vila Itororó Canteiro Aberto procura levantar. Com mediação (e tradução consecutiva) de Fabio Zuker, antropólogo e curador adjunto da Vila, a discussão partiu de um relato do arquiteto sobre sua experiência em ocupações de prédios abandonados em Roma, em particular a ocupação Metropoliz. No início de 2009, cerca de sessenta famílias sem-teto ocuparam uma fábrica de salame desativada, situada na zona Leste de Roma. Eram peruanos, tunisianos, marroquinos, eritreus, sudaneses, ucranianos, roms, italianos. Nos primeiros meses da ocupação, além das dificuldades recorrentes para restabelecer o funcionamento das redes de água, gás e eletricidade, os ocupantes de Metropoliz tiveram dois desafios particulares: de um lado, criar, nos mais de 20 mil m2 daquele edifício de arquitetura industrial, uma disposição adequada às necessidades e aspirações dos novos ocupantes; de outro lado, estruturar uma organização autogerida que incluísse o conjunto dos habitantes, com suas diversas origens, culturas e idiomas. Nesse processo, os ocupantes contaram com a implicação de uma larga rede de movimentos e atores políticos – de organizações de luta pela moradia a associações de bairro, de estudantes universitários a intelectuais, de artistas a educadores. Uma das organizações envolvidas foi o Laboratorio Arti Civiche, dirigido por Francesco Careri, que organizou uma atividade de ensino, pesquisa e prática artística. Em uma série de oficinas, os estudantes de arquitetura e os habitantes de Metropoliz trabalharam juntos para reformar a ala ocupada pelos roms, construir sanitários e duchas, criar uma sala de aula para cursos de italiano e um salão de jogos com brinquedos feitos de materiais reciclados. Mais tarde, o Laboratorio também se envolveu no projeto Space Metropoliz, que Careri considera ter sido a mais significativa de todas as intervenções artísticas já realizadas na ocupação. Idealizado por Giorgio De Finis e Fabrizio Boni, ambos cineastas e antropólogos, o projeto envolveu moradores e artistas em uma espécie de jogo narrativo surrealista, no qual os habitantes eram convidados a imaginar uma viagem à Lua e a construir coletivamente um propulsor para realizá-la. Questionando as noções de possível e impossível, a intenção era, segundo De Finis, “dar voz ao sonho”: “Se ter uma casa é tão impossível quanto ir à Lua, é melhor optar pela Lua”. Ao longo de vários meses, o processo ajudou a estreitar as relações dos moradores entre si e a estabelecer uma maneira mais lúdica de lidar com a construção do espaço habitado. Além disso, ele também contribuiu para a abertura de Metropoliz ao exterior, através de uma apropriação da arte como um instrumento de legitimação e de comunicação política da ocupação. Registrado por De Finis e Boni, Space Metropoliz resultou em um documentário homônimo, que pode ser visto na internet. Como um prolongamento da experiência de Space Metropoliz, Giorgio De Finis criou o MAAM – Museo dell’Altro e dell’Altrove di Metropoliz, do qual é hoje diretor artístico. Instalado na mesma antiga fábrica ocupada por Metropoliz, o museu agregou um novo uso àquele espaço, que passou a ser aberto ao público aos sábados. A coleção de obras – em permanente evolução – é composta principalmente por esculturas, instalações, grafites e performances concebidos e realizados in situ. Pouco a pouco, o MAAM ganhou uma reputação internacional no meio artístico, atraindo criadores de várias partes do mundo e tornando-se um ponto turístico citado nos guias da capital italiana. O “sucesso” do MAAM levanta questões pertinentes sobre as tensões entre os usos de Metropoliz como habitação e como equipamento cultural. Frente ao poder público e à população de Roma, a instalação do museu conferiu à Metropoliz uma legitimidade que, como ocupação de famílias sem-teto, ela não tinha. Considerando que a ocupação continua sendo ilegal, essa legitimidade pode ser crucial para evitar um processo de expulsão dessas famílias. Por outro lado, parece haver certo descolamento entre a proposta artística do museu e o cotidiano dos moradores da ocupação. Ao se tornar uma vitrine para expoentes da street art vindos do mundo todo, o museu poderia estar negligenciando o papel dos próprios moradores como produtores de cultura. Pois se as obras do MAAM estão intimamente ligadas à arquitetura da antiga fábrica, elas nem sempre dialogam (seja em seu resultado formal, seja em seu processo de realização) com os atuais habitantes e com a história da ocupação. Metropoliz seria então um espaço de cultura apenas aos sábados? A história de Metropoliz ecoa na história recente da Vila Itororó. Na ocupação romana, um edifício de tipologia industrial foi transformado em espaço de moradia e convivência para um grupo de pessoas sem-teto originárias de diversos lugares do mundo. Em um primeiro momento, a intervenção de movimentos políticos e artísticos contribuiu para a consolidação da ocupação e para o fortalecimento dos laços entre seus moradores. Ocorrida posteriormente, a instalação do MAAM deve ser lida em outra chave, na medida em que se trata de uma instituição cultural que compartilha o espaço da fábrica sem que a produção artística que ela promove envolva necessariamente a participação dos moradores de Metropoliz ou uma reflexão sobre a condição deles. Ao mesmo tempo, o fato de o museu ser reconhecido – tanto pela população romana quanto pela comunidade artística internacional – como instituição cultural de valor torna a presença do MAAM fundamental para evitar que a ocupação seja desmantelada e seus habitantes, expulsos pelo poder público. Já na Vila Itororó – que nunca foi uma ocupação –, o reconhecimento da área como bem de utilidade pública resultou na sua desapropriação e na expulsão de seus últimos moradores. Essa conduta partiu do pressuposto de que o uso desse espaço de forma pública e “para fins culturais” era incompatível com a manutenção do uso habitacional. O fim da história poderia ter sido uma obra de restauro conduzida por trás dos tapumes e a conversão da Vila em um “centro cultural” tradicional. Entretanto, as atividades cotidianas no Canteiro Aberto conduzem a história em uma outra direção. Elas propõem que se experimentem diferentes formas de rehabitar a Vila – ouvindo as histórias de quem nela viveu, encontrando artistas e técnicos que ali trabalham, participando de oficinas, praticando esportes, cozinhando, brincando, ensaiando, lendo, usando a horta, passeando. Além de tornar efetivo o caráter público e cultural daquele espaço, essas atividades incluem os usuários em um processo de reflexão e de experimentação que, desde já, esboça as possíveis futuras apropriações da Vila Itororó. *** A atividade no Canteiro Aberto foi um complemento à programação organizada pelo SESC em São Paulo com a Casa Azul, Escola da Cidade, Folha de S. Paulo e as editoras Companhia das Letras, GG Brasil e Planeta com os autores Francesco Careri e Benjamin Moser. Veja a programação completa no link: http://www.escoladacidade.org/encontro-com-autores-pos-flip-2016-em-sao-paulo-sesc-escoladacidade-casaazul/ . A roda de conversa com Careri foi organizada pela Vila Itororó Canteiro Aberto, que é uma parceria da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo com o Instituto Pedra. Página de divulgação da atividade com Francesco Careri em 05/07/2016: /caminhada-moradia-e-praticas-esteticas-com-francesco-careri/