Arquivo Milu Leite

Umas das consequências diretas da abertura do canteiro de obras é poder divulgar o andamento das pesquisas, assim como suas falhas. Em diversas ocasiões, foram realizadas chamadas públicas para se tentar coletar fotos e filmes da Vila Itororó, melhorando assim o conhecimento sobre este território (veja aqui como colaborar). No caso, o Arquivo Milu Leite chegou às mãos do projeto pelo “boca a boca”. É sem dúvida um acervo de fotografia muito valioso, que continua porém bastante misterioso e que carece ainda de uma análise mais profunda.

A própria Milu Leite descreve esse álbum de família como o rastro de uma memória esquecida: “As fotos pertenciam ao meu pai, falecido em 2008. Ele provavelmente as herdou da sua única tia, chamada Maritza. Para entender como estas fotos estavam com ela, criei uma hipótese: existe uma ligação ainda pouco elucidada entre minha bisavó Elisa – alemã que se mudou para o Brasil no final do século XIX – e a mulher do português que construiu a vila”. O português ao qual Milu se refere é Francisco de Castro, idealizador da Vila Itororó – figura ainda pouco conhecida. As pesquisas de Sarah Feldman e Ana Castro (a serem disponibilizadas em breve neste site) o descrevem como um empresário luso-brasileiro, não português. Este é um dos muito mitos em torno da Vila Itororó que as pesquisas que integram o processo de restauro vêm desfazendo. Ele teria nascido no interior do Estado de São Paulo para depois passar a infância em Portugal. Voltou para a terra natal já adulto e começou a trabalhar em diversos empregos, até iniciar o projeto da Vila Itororó, em 1916.

Milu continua: “Elas [Elisa e a mulher de Francisco de Castro] talvez fossem amigas (tenho fotos das duas juntas, a senhora portuguesa aparecendo já mais idosa). Minha bisavó Eliza talvez seja uma das mulheres fotografadas na Vila. Além disso, pelo que pude apurar, a esposa (ou irmã) do português foi madrinha do meu pai. Talvez a minha vó tenha trabalhado como doméstica na casa dela, depois de se casar com meu vô (filho da Elisa). Por último, a última suspeita: um dos irmãos da Maritza era fotógrafo. Ele certamente não fez as fotos da vila, porque nasceu depois, mas quem sabe tenha seguido a profissão do pai, meu bisavô Bernard? Gosto de imaginar que talvez meu bisavô seja o autor destas fotos… Suposições aos montes, como vêem. Não tenho informações precisas sobre os primeiros anos de moradia dos meus bisavós no brasil, infelizmente. Só sei que vieram de Berlim”.

A memória fragmentada que as fotografias trazem para Milu Leite espelham as brutais transformações pelas quais a cidade de São Paulo passou ao longo do século XX. Essas transformações geram cesuras no tempo e essas cesuras ficam visíveis nas marcas que a Vila Itororó carrega em sua arquitetura. A cidade cresceu apagando-se a si mesma e apagando assim a possibilidade que seus habitantes teriam de se lembrar das suas próprias histórias. Por isso, o trabalho de reflexão sobre o patrimônio hoje deve ser lido como uma luta para o direito à memória, luta que passa em grande parte pelo direito à cidade, ou seja, pelo direito de participar ativamente das mudanças do nosso entorno e, portanto, do nosso passado e do nosso futuro. O que deve ser restaurado? O que deve ser destruído? O restauro é muito mais do que um gesto técnico, ou, para dizer isso de outra forma, por ser um gesto técnico, o restauro é em primeiro lugar uma escolha crítica que participa de definir o que deve ou não ser apagado, discutido ou reabilitado.

As fotos apontam também para uma riqueza de detalhes relativa à sua construção e à população que a frequentou. O olhar atento pode reparar as mudanças da paisagem do Vale do Itororó, as mudanças no próprio projeto da Vila Itororó, o progresso do arruamento da quadra, a diversidade de fisionomia dos construtores, moradores e operários – entre outros elementos que um analise mais profunda poderia trazer.


Milu Leite vive hoje em Florianópolis, Santa Catarina.