Relato sobre o encontro “Arte, gentrificação e resistência” São Paulo, 30/07/2016 Por Guilherme Giufrida Toda a equipe da Vila Itororó Canteiro Aberto arruma coletivamente as mesas e o espaço para o debate que começará nos próximos minutos. Aquele mobiliário que locomovem também foi realizado por muitos deles, junto a diversos participantes de uma oficina com o coletivo Constructlab, em uma marcenaria aberta. A “sala” onde a discussão vai acontecer é uma arquibancada permeável, que dá a sensação de estarmos dentro, ao mesmo tempo em que há liberdade para poder estar fora e assistir aquilo de outras distâncias e perspectivas. Não é obrigatório participar de nada, mas não hesitam em tornar tudo muito convidativo. Não muito longe, dispõe um fogão e uma mesa decorada de frente para a rua. Nesta cozinha aberta haverá tamales carinhosamente preparados pela artista Kadija de Paula, comida típica dos espaços públicos de diversas cidades na América Latina, lembra a pamonha que circula as ruas das cidades paulistas. De origem pré-colombiana e muito presente na alimentação da américa hispânica, é, segundo a artista, uma comida do guerreiro, da resistência e da transformação; serve-a acompanhada por chá de hibisco, que, segundo ela, estimula a produção de testosterona – refeição para esses tempos difíceis, que exigem coragem e força. Benjamin Seroussi, curador da Vila Itororó Canteiro Aberto, abriu o debate indagando sobre como pensar um centro cultural como um pólo aglutinador e propositor de atividades sem se tornar um produto das suas próprias contradições, instrumentalizando-se a ponto de perder a vitalidade na construção de um comum. Se esperarmos o centro cultural dos nossos sonhos ficar pronto, a cultura será sempre protelável; cabe, ao contrário, habitar a precariedade do presente e agir sobre ele, vivê-lo intensamente e ampliar a sua espessura. Cibele Lucena e Joana Zatz Mussi representaram o grupo Contrafilé. Por que haviam sido convidadas para um encontro sobre arte, gentrificação e resistência para falar especialmente do trabalho que desenvolvem desde 2005, chamado Rebelião das Crianças? O trabalho foi realizado a partir de uma rebelião na FEBEM (hoje Fundação Casa) com crianças aprisionadas. A ação consistiu, primeiramente, em colher notícias de jornal relacionadas à FEBEM, riscar a maneira como se referem aos meninos e meninas (“menores”, “infratores” etc.) e escrever por cima “criança”. O grupo também agiu junto às mães dessas crianças, participando de suas atividades e lutas e organizou piqueniques e outras brincadeiras com crianças que vivem na rua. Como o trabalho artístico pode potencializar ou iluminar lutas que já acontecem no mundo? Qual a especificidade do trabalho de arte (ou de artistas) em relação às já tão potentes e urgentes questões, especialmente em um país como o Brasil – desigual, militarizado e violento? Segundo as artistas, interessa encontrar naquelas crianças a sua potência como crianças (que também está no adulto, não é uma questão etária simplesmente). Tirar as camadas de representação do mundo, da sociedade, da mídia, como categorias que nublam essas imagens em devir. O passo seguinte do grupo foi a vontade de criar um “território matérico”. Isso resultou na realização de dois parques – ou quintais como preferem chamá-los: espaços para brincar e pensar. O quintal como espaço de possibilidades, uma aldeia na cidade, em que o pensamento selvagem (assim como na arte, parafraseando Lévi-Strauss) ainda pode resistir e existir. Quando paravam para escutar as diversas vozes ali presentes, perceberam continuamente que aquele “quintal é o mundo” (relembrando a máxima “museu é o mundo” de Oiticica). Os moradores de um bairro como Jardim Miriam, na zona sul de São Paulo, têm conhecimentos sobre a terra e o plantio, porém muitas vezes negam este saber pela vergonha motivada pelos discursos sobre a vida urbana que existem na cidade. Aqui provavelmente residem as conexões que fizeram a equipe que trabalha hoje no projeto Vila Itororó Canteiro Aberto convidar o grupo para falar desse trabalho, posto que é uma ação artística de construção de um espaço físico, de como conectar o espírito do quintal com um centro cultural. Quais as contradições entre um projeto de arquitetura que surge de fora para impor novas distribuições dos corpos em um espaço e processos em que o próprio público, pensador de seu espaço, é convocado para coletivamente intervir sobre um território (prática condenada por considerável parcela dos arquitetos como “arquitetura tátil”, ou até “urbanismo débil”)? Qual a hierarquia, impensada, mas imprevisível, do artista proponente e da comunidade que ali é considerada, ajudada, assistida? Essas questões conectam diretamente o trabalho dos quintais realizado pelo grupo Contrafilé e o desenvolvido pelo trabalho do Canteiro Aberto ao implementar um centro cultural em um espaço de moradia recentemente desocupado (a Vila Itororó). O centro cultural, submetido a uma discussão como essa, visa problematizar uma série de decisões que foram tomadas anteriormente para separar moradia e cultura. Segundo as artistas do Contrafilé, não se trata de fazer uma assistência ao outro, “não é uma questão de simplesmente dar um gira-gira para quem não tem”. Mas de criar uma imagem do possível através de uma experiência que torna evidente a força do outro. Preferem operar o direito à cidade não a partir de um estrato social, mas da força da criança. A arte pode criar uma experiência que se torne a evidência dessa força, materializando essas imagens e dando-lhes densidade e consistência. “A arte tem a ver com a inscrição de possibilidades reais e ao mesmo tempo que não se excedam quando se tornem reais, que continuem sendo possíveis”. O artista Julio Dojcsar nos contou sobre seu trabalho na região da Cracolândia, com a Casa Rodante. Resumiu a história da área: de região residencial (com as casas da elite do café por conta da proximidade à linha do trem); a uma zona comercial das mais vibrantes e importantes da cidade; a decadência residencial e sua ocupação por movimentos de moradia (a região hoje concentra boa parte das ocupações da cidade), a estigmatização, sobretudo através de veículos da mídia que, segundo ele, inventaram a Cracolândia, reduzindo a vida do bairro ao consumo de droga. Segundo ele, há um processo também especulativo, de desvalorização daquele território, hoje parcialmente comprado por grandes empresas. Centro culturais como a Sala São Paulo, concluído poré-m sem gerar os efeitos pretendidos de “renovação” da área, e o famigerado Teatro da Dança, desenhado por um escritório suíço de extremo renome internacional, seriam formas de tornar um local mais interessante para investidores, solução oposta ao que propõe Julio. O pertencimento é oposto à propriedade. Julio entende a Cracolândia como espaço de resistência às pressões da cidade e do capital, um lugar de difícil penetração – “pedra no sapato da gentrificação”. Arte, para ele, é uma questão de envolvimento. Julio mora na região, vivendo seus conflitos, e compreendendo suas potencialidades. O artista, segundo ele, usa o que tem, criando disparadores visuais para fortalecer laços de vizinhança, isto é, cria espaços para aproximar grupos que não se falam. Arte como agente semipúblico de intervenção, que ajuda a encontrar as memórias mais afetivas através de mensagens subliminares para mostrar para o morador que a cidade é dele e para estimulá-lo a “andar na mesma calçada”. Um trabalho mais para dentro do que para fora. Através da arte, operando e criando um território material – como os quintais realizados pelo grupo Contrafilé, ou a “mesma calçada” da vizinhança da Cracolândia estimulada pela Casa Rodante, ou o canteiro aberto da Vila Itororó – é possível dar densidade para uma imagem e ampliar a espessura do presente, fazer com que as imagens de possibilidades que nos habitam, pois estão dentro do nosso corpo, se realizem. A arte pode muitas vezes se associar a programas de prefeituras (segundo Julio, “põe o crachá e vai pro pau”): o Contrafilé teve que conversar em algum momento com a Secretaria de Segurança Pública, a Casa Rodante age junto à Secretaria de Direito a Cidade e a de Direitos Humanos. A responsabilidade para pensar e construir a cultura da cidade vai para além dos arquitetos e de seus projetos (muitas vezes desenvolvidos em gabinetes). É necessário, como comentou Graziela Kunsch, escutar e fomentar as demandas do público. Se ex-moradoras e ex-moradores não podem voltar a habitar literalmente a Vila Itororó, por já terem sido atendidos em uma política habitacional, de que outras formas habitá-la? Poderão ter um cadastro para usar a piscina, quando esta estiver reformada? Poderão integrar um coletivo gestor da Vila Itororó? As crianças poderão brincar livremente pelo pátio? Além de debater formas de incluir a moradia dentro de um projeto de centro cultural (e a manutenção das tipologias residenciais pelo Instituto Pedra torna isso possível), propõe-se um habitar alargado. Usos espontâneos diversos, cultivo de uma agrofloresta, cozinha e marcenaria abertas. Outro exemplo citado foi o armário construído para que os moradores de rua guardem os seus pertences. Pistas e exemplos de como habitar a cultura e reparar a violência que se deu neste espaço no passado. Enquanto os palestrantes fazem suas falas ouço vozes de muitas crianças ao redor brincando. É algo muito comum em vernissages, e também nos museus aos finais de semana, em que artistas e visitantes levam seus filhos. As atitudes das crianças são o contrário do que um espaço como o de uma galeria costuma presenciar. Eles tratam aquilo como um espaço para brincar, enquanto seus pais, mães, tios e tias estão falando de “coisa séria” – seja arte, negócio, política. A Vila Itororó Canteiro Aberto busca ser um grande quintal, onde há uma clara permeabilidade entre esse tablado-arquibancada em que ocorria a discussão e os espaços em que as crianças brincavam. Todos precisamos desses quintais.