Por Dafne Melo 26/11/2016 A sala de atendimento da Clínica Pública de Psicanálise na Vila Itororó condensa, em sua disposição, algumas das ideias que permeiam essa experiência, iniciada em julho de 2016. A janela ampla com vista para a Vila e para o bairro da Bela Vista permite que a cidade entre na clínica, ao passo que a clínica se posiciona perante a cidade e também se permite pensar e elaborar sobre o que dela ali aparece e seus efeitos nos indivíduos que entram para conversar. Ali, ao lado dessa sala, foi realizada no dia 26 de novembro a primeira conversa pública sobre experiências atuais que buscam pensar e praticar uma psicanálise pública, popular e com um sentido coletivo e comunitário. Propostas que buscam levar a psicanálise a pessoas que dificilmente teriam acesso a ela, e a lugares onde ela não costuma chegar. Três foram as experiências compartilhadas: os atendimentos a militantes políticos na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); a prática do coletivo Margens Clínicas na periferia de São Paulo; e a própria Clínica Pública no Canteiro Aberto da Vila Itororó.  Clínica na cidade e a cidade na clínica A experiência anfitriã foi apresentada por Graziela Kunsch, artista e formadora de público da Vila Itororó Canteiro Aberto[1]. A Clínica Pública de Psicanálise é uma das ações da formação de público, tendo sido proposta por Graziela junto aos psicanalistas Daniel Guimarães e Tales Ab’Sáber[2]. Graziela contextualizou a Vila Itororó, com ênfase na história de resistência e luta das famílias que foram retiradas dali. O Canteiro Aberto, hoje, se propõe a experimentar potenciais usos futuros que a Vila pode ter, conforme avançar o processo de restauro/a construção de um centro cultural no local. Um desses usos, hoje, é a Clínica Pública. Num primeiro momento, ela foi pensada como política de reparação para as famílias que foram removidas de suas casas. No início, os idealizadores da clínica foram questionados pelo curador do projeto se cabia a eles definir que aquelas famílias haviam sofrido um trauma. Graziela contou que muitos ex-moradores inclusive consideram a forma como saíram da Vila uma conquista, uma vitória, uma vez que assinaram um acordo e conquistaram apartamentos subsidiados na área central, o que é raro nas lutas por moradia. Mas essas famílias não tiveram a chance de escolher permanecer ali, o que, para ela, configura uma violência. Venceu a lógica da gentrificação. Embora até aqui poucos moradores tenham ido buscar atendimento, o simples fato de saberem que uma clínica pública havia sido pensada e construída para atendê-los já teve efeitos terapêuticos sobre alguns desses indivíduos. A clínica também foi pensada para atender outras vítimas da violência do Estado e do mercado, sobretudo militantes de movimentos sociais. Assim como na experiência do Margens Clínicas, há uma perspectiva de apontar para o que poderia e deveria ser uma política pública em saúde psíquica, na qual o Estado se responsabilize pela reparação necessária após traumas gerados pelo próprio Estado – desde um despejo a uma agressão policial. Aos poucos, a clínica foi se abrindo para os que por ali decidissem ir, em busca de um espaço de escuta. Foram organizados plantões abertos, onde as pessoas são atendidas por ordem de chegada, todos os sábados. Caso haja interesse, a pessoa pode voltar e seguir as conversas com o mesmo psicanalista ou escolher ser atendido por outro profissional, se assim desejar[3].  Para Daniel Guimarães, a questão essencial do trabalho da Clínica Pública de Psicanálise é que a expressão inventiva e criativa do trabalho clínico deve pressupor um ouvir, viver, acompanhar as próprias características do espaço, da região, dos moradores, das demandas dos sujeitos que se deslocaram para lá conversar. “A psicanálise foi inventada pela fala das pacientes e a compreensão dos médicos que tiveram a dignidade de reconhecer o discurso transformador e inaugurador delas, e não um método pensado de cima para baixo, autoritário, a fim de moldar a subjetividade das pessoas”, explica Daniel. O psicanalista explica que é na relação menos desigual entre quem fala e quem escuta que se produz saídas para os sofrimentos e novos caminhos para potências de vida, novas descobertas sobre as características da subjetividade em cada momento histórico e avanços para a própria psicanálise. “É o povo quem faz o setting, digamos, e aqui temos toda a liberdade que o desejo possa permitir inventar formas de conversar, dentro e fora do consultório e, se assim acontecer, criar um espaço público interno justo em um momento em que esta forma de vida social comunitária sofre ataques institucionais conservadores e regressivos”[4]. Clínica no contexto militante Marco Fernandes, psicanalista e militante do MST, fez um breve relato da experiência na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Para isso, resumiu o contexto em que a escuta foi primeiramente oferecida dentro da escola: um curso que recebe militantes de diversos países e organizações da América Latina, que ali convivem por três meses, longe da família e inseridos em um ritmo intenso de estudos e atividades. “A escola é um espaço de intensidade humana inacreditável”, comentou Marco. “É um espaço de muita capacidade intelectual, política, afetiva, amorosa, mas essa intensidade é demais para algumas pessoas”, continuou. Apesar de um dispositivo novo naquele contexto e de alguns medos e preconceitos dos movimentos sociais em relação à psicanálise, a iniciativa foi bem acolhida, pelos organizadores do curso e pelos estudantes. “Na primeira semana vieram três ou quatro, na segunda seis pessoas, e depois além destes, havia uma lista de espera de 8. Ficou esse recado de que havia uma demanda real”, relatou Marco, que atendeu sozinho no primeiro ano e depois convidou outros psicanalistas, entre eles Daniel Guimarães. Os processos breves de análise também se davam nesse mesmo compasso de intensidade. “A construção da transferência era mais rápida, talvez porque sabiam que éramos militantes também, oferecendo uma escuta feita por uma espécie de compromisso com a militância”, opinou. A experiência reafirmou o sentimento da necessidade de que o tipo de escuta oferecido pela psicanálise esteja presente nas camadas populares, organizadas ou não. No caso daqueles que estão inseridos dentro de uma militância, Marco acredita que além de ter que lidar com as mazelas cotidianas que atravessam sua subjetividade e psiquismo, há ainda as responsabilidades políticas que podem gerar ainda mais angústia, especialmente no atual período que o Brasil vive. “Para os militantes, além dos corres da vida cotidiana, ainda há a responsabilidade de organizar, estar presente, desempenhar o papel de liderança política”. Muitas vezes, os únicos espaços de acolhimento e escuta que essa camada da população encontra são as igrejas, sobretudo as pentecostais, que tanto se proliferam nas periferias do país. Marco relatou como muitas vezes militantes também frequentam esses cultos e encontram ali um espaço de acolhida e conforto. Na conversa com o público, foi pontuada a necessidade da psicanálise, entretanto, não reproduzir o mesmo acolhimento da Igreja – cujo efeito na maioria dos casos é descomprimir as tensões da vida cotidiana de forma alienante -, mas que possa gerar potencial de transformação individual e social. Ainda no debate, também foi abordado o potencial que a psicanálise pode ter dentro das organizações políticas, onde muitas vezes operam lógicas que terminam por “quebrar” os militantes. “Os princípios da psicanálise do acolhimento e do cuidado, devem estar presentes em todos os lugares, inclusive nos espaços militantes”, pontuou Marco. A seu ver, é necessário que as organizações se abram para essas experiências. O fato de que exista demanda nesses ambientes já é algo positivo e novo, uma vez que em muitos momentos sequer isso ocorria. “Há uma cultura da esquerda e das organizações em geral que acreditam que questões individuais são um desvio pequeno-burguês. Acho que estamos pagando o preço disso. Essa contradição não existe de fato, nós somos as duas coisas sempre, sujeito/objeto, indivíduo/sociedade; não existe indivíduo fora do coletivo, mas sempre negligenciamos isso nas organizações em geral, historicamente. Existem casos interessantes na História de como lidar com essas duas coisas e acho que essa é mais uma boa pestezinha que a psicanálise pode ajudar a instalar”, finalizou Marco. Clínica na periferia A experiência do coletivo Margens Clínicas, existente há cerca de quatro anos, foi apresentada por três integrantes do grupo: Anna Turriani, Gabriela Serfaty e Rafael Alves Lima. O grupo reúne psicanalistas, psiquiatras e cientistas sociais que trabalham os efeitos psíquicos da violência de Estado. O grupo surgiu no mesmo período em que foi instalada a Comissão Nacional da Verdade, com uma proposta de pensar a reparação psíquica não só daqueles que foram vítimas da violência de Estado no período da ditadura civil-militar, mas também daqueles que a vivem nos dias de hoje, sobretudo na forma da violência policial, que atinge majoritariamente os jovens negros das periferias. Se na experiência do MST, o atendimento individual foi a escolha em um contexto de uma vivência de muita coletividade, no Margens Clínicas são usadas metodologias coletivas de escuta, já que os contextos em que atuam, frequentemente, são de territórios onde o tecido social está esgarçado e o sentido de comunidade e coletividade precisam ser (re)construídos. Atualmente, o Margens constrói a Clínica do Testemunho nas Margens, projeto vinculado à Comissão da Anistia, no qual fomentam debates e acompanham afetados – direta ou indiretamente – pela violência no período da ditadura na periferia de São Paulo, nas regiões de Heliópolis e Perus. Conduzem também o Centro de Estudos em Reparação Psíquica, em parceria com o Conselho Britânico, que tem o compromisso de fortalecer modelos clínicos alternativos e de defender a importância da efetivação de políticas públicas de saúde e assistência social reparatórias. Para o grupo é fundamental que o Estado se responsabilize pela reparação psíquica integral às vítimas. “Nos fundamos sob a perspectiva, e sempre a reforçamos, de não fazer assistencialismo. A gente sabe [que os atendimentos] deveriam ser uma política pública, que deveriam ser uma responsabilidade de Estado, e a gente não quer fazer um trabalho assistencialista no sentido de tirar do Estado a responsabilidade dele, mas fazer um trabalho sério de escuta desse sofrimento para inclusive pautar o Estado em relação a essas questões e dizer: olha, é por essa e essa razão que vocês precisam oferecer um atendimento clínico”, explicou Anna. O trabalho de escuta nos bairros da periferia tem se mostrado um grande desafio. Primeiro, exige um grande esforço de articulação política no território para poder garantir a execução do trabalho de escuta propriamente dito. Segundo, há resistências para tratar de temas como violência policial e racismo com psicanalistas que, quase sempre, pertencem a setores mais privilegiados. Impossível aí não pensar as limitações decorrentes do fato da psicanálise ainda estar muito circunscrita a ambientes economicamente privilegiados, e da necessidade de que seja transformada e enriquecida na medida em que chegue a públicos diferentes aos que já chega hoje, e seja praticada por setores sociais diferentes daqueles que a praticam. “Permitir negros e as classes populares na psicanálise vai possibilitar que ela possa falar algo sobre isso. Só vamos poder falar algo concreto sobre racismo quando tivermos muito mais negros dentro da psicanálise”, opinou Anna. Gabriela Serfaty comentou como vem sendo fazer a escuta desses jovens periféricos, dentro do projeto Clínica nas Margens. Para além do trabalho de reconstrução da memória de como aquela comunidade viveu a ditadura, trabalha-se com as marcas deixadas pelo regime militar, sendo a maior delas a violência policial vivida pelos jovens. “Aí fazemos o trabalho clinico, entender a violência que eles vivem hoje e dar a escuta. E ao escutar é possível construir narrativas sobre esse trauma que persiste até hoje. E nos encontramos nesse desafio que é reparar o irreparável”, contou. Gabriela também aponta que no esforço de construção dessas memórias e narrativas, o trabalho do grupo precisou refletir sobre o cruzamento entre clínica e política. Há uma atenção posta em encontrar na escuta aspectos do inconsciente que não estejam só remetidos à questão edipiana, cutucando a psicanálise que tenta remeter o sofrimento sempre ao âmbito privado. “Tentamos trazer questões do sofrimento que estão para além do individual. Diferentemente da clínica no MST, não estamos em um lugar onde há formação política e vemos a necessidade de formar. Vemos como é importante fazer com que o luto de uma mãe que perdeu um filho vire uma luta. Essa travessia é o contrário. Se vocês [MST] sentem a necessidade de individualizar o sujeito, a gente sente que é necessário coletivizar o sujeito. Nosso trabalho está muito voltado ao dispositivo grupal, basicamente trabalhamos e apostamos no grupo – claro que há pacientes em sofrimento agudo e encaminhamos para uma clínica individual”, resumiu Gabriela. O objetivo não é que o processo desencadeado pela escuta se desdobre em uma militância, mas sim abrir a possibilidade para esse caminho. “Entendemos que aquele sofrimento tem uma espessura política que é importante ser partilhada, porque se não fica tudo na ordem do édipo, da família. Queremos entender quais efeitos psíquicos do machismo, do racismo, da colonização”.  Por fim, a psicanalista afirmou que vem sendo um grande desafio entender como esse trabalho clínico pode se dar de forma paralela a uma formação política. “Como a gente faz isso estamos às voltas de entender”. O último integrante do Margens a falar foi Rafael Alves Lima, que se dedica a estudar a história da psicanálise. Rafael comentou como já na década de 20 do século passado, psicanalistas realizaram experiências de clínicas gratuitas e sociais, como foi o caso da Policlínica de Berlim que, assim como as experiências de hoje, viveram a tensão criativa entre tradição e inovação. A Policlínica de Berlim iniciou seus trabalhos em 1920 e durou até a Segunda Guerra Mundial. Foi nesse espaço, com atendimento gratuito e aberto a experimentações que foi criado, por exemplo, o dispositivo da supervisão, hoje considerado um dos tripés na atuação do psicanalista. Rafael apontou que essas experiências de clínicas sociais, públicas e gratuitas, ainda que tenham tido como participantes grandes nomes da psicanálise como Melanie Klein, Sándor Ferenczi e Otto Fenichel, costumam ser omitidas da História oficial. Entretanto, como é o destino do que é recalcado, há sempre o ressurgimento de grupos de psicanalistas que sentem a necessidade de criticar a tradição à luz das demandas sociais de seus tempos. Por fim, destacou que essas experiências mais inovadoras sempre se viram ameaçadas por épocas de recrudescimento da direita, como foi o caso da Clínica de Berlim, perseguida pelo nazismo. “Como a gente vai se posicionar diante de um momento de recrudescimento, com a direita avançando cada vez mais? Estamos vivendo dentro de um golpe e nossas propostas por mais interessantes, inovadoras, politizantes e politizadas que sejam, parecem estar ameaçadas por uma sombra que não deseja que esse tipo de psicanálise aconteça. Os nossos trabalhos estão sempre na linhagem do pé na porta porque essas portas vão sendo fechadas ao longo da História”, resumiu. Dinheiro Um ponto comum entre as experiências acima é que todos os atendimentos não são intermediados pelo dinheiro. Tales Ab’Sáber problematizou em sua fala “uma ideologia disfarçada de teoria psicanalítica”, que coloca o dinheiro como condição para que o processo psicanalítico ocorra. Contrariando as potências críticas da psicanálise, Tales pontua que o que se tornou o destino da psicanálise ser objeto de uma economia política liberal de mercado, de vendas de serviços. “É uma psicanálise classista que vai ter a coragem de nos dizer que o dinheiro é o estruturante da realidade”, afirmou. “Claro que precisamos do dinheiro, mas isso é outro problema”. Para Tales, a crítica radical do lugar do dinheiro na psicanálise é um dos principais passos para que clínicas públicas como a da Vila Itororó possam ocorrer e, futuramente, se reproduzir pela cidade. “O dinheiro é uma necessidade forçada socialmente e historicamente, mas o discurso psicanalítico não está mediado pela mais valia do dinheiro, pela medida do dinheiro, como não é ele o que mede a arte, a filosofia e o amor. Isso que eu falo aqui Sócrates disse séculos atrás, quando dizia que a Filosofia não era vendida. A nossa psicanálise é interessante e contemporânea porque não é vendida”. A gratuidade, entretanto, não deve ser entendida dentro de uma perspectiva assistencialista, feita por “psicanalistas bonzinhos”. “Isso é uma postura de que é necessário a produção de vida fora do sistema do dinheiro e fora do sistema da mercadoria”. E finaliza: “O inconsciente funciona muito bem. A transferência funciona muito bem sem ter que se estruturar pela mediação do dinheiro”. [1] Graziela Kunsch foi responsável pela Formação de público da Vila Itororó Canteiro Aberto entre março de 2015 e abril de 2017. Hoje segue, com Daniel Guimarães, apenas na coordenação da Clínica Pública. Informação acrescentada neste relato em 15/09/2017. [2] Este último não está mais no projeto. A Clínica Pública de Psicanálise desde o início de 2017 é tocada por: Ana Carolina Santos, Camila Bassi, Camila Kfouri, Dafne Melo, Daniel Guimarães, Fernando Pena, Flavio Bacellar, Frederico Ventura, Graziela Kunsch e as supervisoras Heidi Tabacof, Maria Marta Azzolini e Maria Silvia Bolguese. Informação acrescentada neste relato em 15/09/2017. [3] Aqui [https://www.facebook.com/clinicapublicadepsicanalise/photos/a.1285400158205248.1073741828.1282770158468248/1381720698573193/?type=3&theater ] uma explicação mais detalhada de como funciona a Clínica Pública, que em julho de 2017 passou a fazer, além dos atendimentos individuais com continuidade, sessões em grupo. [4] Essas falas foram retiradas de uma entrevista com Daniel Guimarães realizada em dezembro de 2016, após a conversa pública. Durante o evento, ficou explícita uma divergência sobre uma proposta de “rodízio” entre psicanalistas, na qual o paciente não seria atendido por um analista fixo, mas por qualquer um do grupo, aleatoriamente. Tal método, defendido por Tales Ab’Saber na fala que encerrou o evento, não refletia a prática concreta da clínica, onde havia continuidade da mesma dupla analista-analisando. Segundo Graziela Kunsch, em ponderação feita durante o evento, apenas um paciente havia participado voluntariamente desse rodízio entre analistas após seis meses de existência da clínica e quase duzentos atendimentos realizados. Para mais informações sobre o setting “pelo povo” ler o artigo de Daniel Guimarães: O direito à cidade psíquica: a Clínica Pública de Psicanálise, ou a psicanálise como canteiro aberto, por Daniel Guimarães [/em-obras/clinica-publica-de-psicanalise/o-direito-a-cidade-psiquica-por-daniel-guimaraes/].